Decorridos quatro anos do surgimento da inteligência artificial generativa (IAG), a elaboração de diretrizes específicas para o uso de recursos baseados nessa tecnologia consolidou-se como uma prática de governança disseminada no jornalismo, tanto nas chamadas “redações de referência” (a exemplo do jornal britânico The Guardian, objeto de análise mais apurada neste artigo) quanto em outras que, embora sendo de menor porte, emergiram como players relevantes na mesa global de debates sobre a aplicação da IA — e, especialmente, os impactos desta — sobre o fazer jornalístico.
Sob o prisma de uma breve contextualização do tema, é possível estabelecer alguns marcos fundamentais, sendo o primeiro destes o pioneirismo, após o advento da IAG, da estadunidense Wired, revista dedicada à cobertura da tecnologia em diferentes esferas, que já em março de 2023 lançou a sua política de uso de IA sob um contexto particularmente interessante em termos analíticos, marcado pela revelação do cometimento em série de graves erros editoriais, a partir de usos não declarados e precariamente supervisionados de IAG (ainda em caráter experimental) por veículos como Men’s Journal, CNET, Gizmodo e Sports Illustrated, apenas para utilizar alguns dos casos mais emblemáticos ocorridos nos EUA, que provocaram, entre outras consequências, a demissão de profissionais consolidados em cargos de chefia e, sobretudo, sérios danos reputacionais aos veículos atingidos e ao jornalismo enquanto atividade profissional.
Não é exagero afirmar que esta política da Wired foi adotada como modelo para as que seriam elaboradas posteriormente, em que pese esta não ter sido uma incursão propriamente inédita na seara da autorregulação da inteligência artificial em grupos de mídia. Anteriormente, BBC (Reino Unido, 2017) e Bayerischer Rundfunk (Alemanha, 2020) já haviam se comprometido publicamente a obedecer a preceitos éticos fundamentais por meio de declarações de princípios, embora não ainda por meio de um documento específico voltado para a aplicação direta de recursos automatizados em suas rotinas jornalísticas de produção, o que ambas fizeram somente algum tempo depois de a IAG e seus efeitos já terem passado a ocupar lugares cativos na pauta das discussões mais recorrentes sobre as perspectivas para o jornalismo, fato compreensível em razão da necessidade de se garantir o tempo hábil necessário para organizar comissões interdisciplinares e promover debates salutares sobre as implicações da IA.
Para quem tiver interesse, conferir as diretrizes da BBC (2024) e da BR (2026) ajuda a compreender alguns dos traços de culturas organizacionais amadurecidas por processos contínuos de aprimoramento em prol da excelência. No caso da organização britânica de mídia pública, estas balizas sobre o uso de IA integram um vasto framework ético de alta complexidade, cuja amplitude vai da Carta Real (Royal Charter, a base constitucional que rege a BBC) até códigos de conduta voltados para assuntos específicos. Já o grupo de mídia alemão (também da esfera pública), sediado no estado da Baviera, possui um laboratório dedicado a processos de automação, o AI + Automation Lab, uma equipe interdisciplinar que trabalha na interseção entre jornalismo, ciência da computação e desenvolvimento de produtos.
De 2023 a 2025, dezenas de redações mundo afora seguiram o exemplo da Wired e constataram a necessidade de adotar diretrizes próprias — tese de doutorado defendida pelo autor deste artigo em 2025 as divide em quatro modalidades: a primeira, de caráter preliminar é o posicionamento editorial da redação diante da inteligência artificial, manifestado normalmente por meio de um texto institucional; já as outras três podem se configurar como evoluções documentais deste posicionamento inicial: protocolos editoriais, declarações de princípios éticos e políticas de uso. Convém salientar que esta última engloba documentos dedicados exclusivamente a delimitar balizas para um uso ético, responsável e transparente de IA, não sendo portanto, apêndices de códigos deontológicos gerais previamente estabelecidos por organizações jornalísticas.
O protagonismo da autorregulação adquire escala ainda mais expressiva em países ainda sem um marco regulatório amplo a respeito da IA, como é o caso do Brasil, onde o Projeto de Lei 2.338/2023 ainda tramita na Câmara dos Deputados, mesmo cerca de dois anos após ser aprovado no Senado Federal. A realidade nacional tem no Núcleo o seu precursor (maio de 2023), tendo este optado por uma estrutura de política de uso sujeita a alterações pontuais ao longo do tempo, modelo incorporado também por outros nativos digitais (Agência Tatu, Agência Pública, Aos Fatos, AzMina e Meio) e pelo Estadão.
Já Folha e Globo enveredaram por outros caminhos, abrindo espaço em diretrizes preexistentes, emancipando a IA em códigos de referência para o jornalismo brasileiro: o Manual de Redação da Folha (protocolo editorial lançado nos anos 1980) e os Princípios Editoriais do Grupo Globo, declaração de princípios éticos consolidada em 2011.
Modelos de diretrizes
Do Nieman Lab ao Reuters Institute for the Study of Journalism, passando por Poynter Institute e Columbia Journalism Review (CJR), guias e estudos sobre o desenvolvimento de diretrizes visando o uso ético, responsável (em termos de accountability) e transparente de IA surgiram em profusão nos últimos anos e produziram uma malha profícua de conhecimento com insights relevantes para os empreendimentos jornalísticos que ainda não possuem documentos orientativos próprios, adaptados às suas particularidades.
No caso da CJR, a referência aqui utilizada é a reportagem assinada por Emily Goligoski, publicada em julho deste ano e que, como um verdadeiro mapa, nos ajuda a navegar pelas águas turbulentas das questões éticas intrínsecas ao uso de IA no Jornalismo. Comecemos pelo alerta providencial emitido por uma de suas entrevistadas, Jane Barrett, diretora de produtos da agência de notícias Reuters: “O mundo da IA avança de forma incrivelmente rápida; por isso, todos nós, veículos de mídia, precisamos rever constantemente nossas políticas”.
Em comum, os depoimentos reforçam o entendimento de que uma política específica, de forma isolada, não reúne poderio suficiente para ser uma garantidora plena tanto da obediência a princípios editoriais quanto de uma “eficácia” para mitigar riscos éticos. A fim de derrubar as barreiras de adoção de recursos de inteligência artificial — notadamente a lacuna de competências, o ceticismo dos membros das equipes e a falta de clareza quanto a casos de uso, de acordo com o relatório Future Newsrooms Study 2026, da FT Strategies e da WAN-IFRA —, gestores de redações defendem uma abordagem estratégica, que contempla um programa contínuo de treinamentos sobre essas diretrizes; a supervisão qualitativa, coordenada por um comitê multidisciplinar de lideranças e apoiada pelos profissionais, dos fluxos de trabalho que envolvem a IA; e o estabelecimento de canais permanentes de interlocução sobre essa tecnologia com seus pares de mercado e respectivos públicos.
The Guardian: compromisso assumido com o público
O Guardian possui uma trajetória tão longeva quanto respeitável: lançado em 1821 com o nome The Manchester Guardian, alusivo à sua cidade natal, adotou a marca atual em 1959, pouco antes de se transferir para Londres, onde segue até hoje como um dos expoentes do jornalismo mundial. Tal condição naturalmente deve impelir aqueles que atuam na pesquisa sobre o campo a observar com atenção o processo de balizamento da inteligência artificial em seus domínios. Logo em junho de 2023, uma declaração de princípios éticos [The Guardian’s approach to generative AI, no original em inglês] foi publicada pela editora-chefe Katharine Viner e Anna Bateson (diretora executiva do Guardian Media Group) como o resultado de um processo de discussão, conduzido por três meses no âmbito de um grupo de trabalho formado por profissionais da equipe editorial e também dos segmentos de criação, engenharia, produto, jurídico, comercial e de parcerias.
Desde então, a IA se tornou objeto permanente de discussão e os fluxos produtivos passaram por ajustes finos, culminando na atualização anunciada em março de 2026. A nova versão é concluída por um importante aviso: “Este artigo foi publicado originalmente em junho de 2023. O mesmo foi atualizado em março de 2026 para incorporar as orientações mais recentes sobre IA Generativa, em conformidade com uma alteração no código editorial [Editorial code of practice and guidance, no original em inglês]”. Aqui se tem a sinalização de uma mudança de itinerário organizacional, pois a supracitada declaração de princípios éticos, inicialmente autônoma, foi alinhada ao código hierarquicamente superior, que preconiza o seguinte (em tradução livre para o português) (Guardian News & Media, Editorial code of practice and guidance, 2026, p. 12):
IA generativa é um termo abrangente que descreve qualquer tipo de inteligência artificial que utiliza algoritmos de aprendizado não supervisionado para criar texto, imagens, vídeo, áudio ou código. A tecnologia está se tornando rapidamente mais sofisticada, integrada e acessível, podendo ser utilizada de forma responsável de diversas maneiras.
Ferramentas de IA podem ser empregadas, com cuidado e responsabilidade, no processo de produção jornalística. No entanto, o material criado ou adaptado com o uso de IA generativa pode suscitar questões significativas relacionadas a vieses, autoria, plágio e direitos de propriedade intelectual. O aspecto mais importante para o jornalismo é que essa tecnologia não é confiável nem consistente, tendendo a introduzir erros e imprecisões de maneiras imprevisíveis.
O público do Guardian tem o direito de esperar que o trabalho publicado com a sua assinatura seja de sua autoria. Os jornalistas são sempre responsáveis pelo jornalismo que produzem, e o uso dessas ferramentas exige rigor e responsabilidade absolutos. A IA generativa deve ser utilizada apenas em conformidade com o Código Editorial geral e com os princípios do Guardian sobre IA generativa. A IA generativa pode ser usada para potencializar a expertise de nossos jornalistas, mas não para substituí-la; a supervisão e o controle humanos ativos são essenciais. Qualquer uso significativo de IA generativa em uma matéria jornalística deve ser explicitamente aprovado pelo editor sênior responsável e claramente indicado ao usuário, em conformidade com nossas diretrizes de transparência.
Na declaração assinada por Viner e Bateson, três pilares são inegociáveis: 1) Elaboração dos princípios em prol dos leitores, tendo o controle humano como fiador da responsabilidade editorial que deve proteger o público das inconsistências e vieses da IA; 2) Estabelecimento das diretrizes em benefício da missão do jornal, da qualidade do trabalho da equipe e da reputação da empresa que o publica; e 3) Respeito absoluto pelos criadores e detentores dos direitos de conteúdos utilizados para o treinamento de modelos de linguagem ampla que fundamentam os sistemas de IA, algo que os veículos de mídia têm encarado como uma luta sem precedentes para a sua própria sobrevivência, conforme atestam movimentos como os que são capitaneados pela Coalizão SPUR (“Padrões para Direitos de Uso do Editor”, na sigla em inglês), formada em fevereiro deste ano e que, mais recentemente, teve a adesão de entidades associativas como a continental Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a brasileira Associação Nacional de Jornais (ANJ).
Sinal de alerta
O cenário da inteligência artificial permanece consideravelmente movediço e permeado por incertezas, com diversos pontos ainda a serem esclarecidos no âmbito técnico. Evitar que “caixas-pretas” dificultem o entendimento de como esses sistemas e agentes de IA são treinados e em que medida sua autonomia representa riscos e ameaças à integridade jornalística deve ser objeto de busca contínua, ao mesmo tempo em que o estabelecimento de diretrizes é um recurso altamente recomendável, configurando-se ao mesmo tempo como o ponto de partida de um processo de assunção de compromissos públicos das iniciativas jornalísticas com os seus públicos no que se refere à inteligência artificial, e também uma resposta necessária a um risco relevante que, se não for encarado com a devida atenção, tende a se tornar um forte indutor de descredibilização do jornalismo, uma ameaça ainda mais potente e difícil de ser debelada do que outros perigosos fenômenos da contemporaneidade, a exemplo da desinformação e da evitação de notícias (news avoidance).
Jonas Gonçalves da Silva é Jornalista graduado pela Cásper Líbero, é doutor em Mídia e Tecnologia pela Unesp e mestre em Produção Jornalística e Mercado pela ESPM. Foi pesquisador sobre Governança de Agentes de IA no IEA-USP e, atualmente, é pós-doutorando em Gestão de Educação e Difusão do Conhecimento na Unicamp.