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Impactos da IA no jornalismo

Para onde iremos e que cuidados tomar?

20 outubro 2026

É um privilégio fazer parte de uma geração que passou por tantas transformações tecnológicas. Não que sejamos os únicos: meus pais devem ter ficado muito impactados quando conversaram pela primeira vez ao telefone com alguém a centenas de quilômetros de distância, e isso certamente alterou por completo suas relações e suas vidas. Mas essas últimas quatro décadas, período em que minha carreira se desenvolveu na imprensa brasileira, foram palco de profundas alterações no campo das tecnologias, predominantemente no ecossistema digital. 

Me lembro perfeitamente do dia em que, entrando na redação da “Folha de S.Paulo”, lá pelo meio da década de 1990, me deparei com uma placa na porta de uma pequena sala sem janelas, ao lado da editoria “Ilustrada”, com a seguinte inscrição: Computador da Internet. Poucas pessoas sabiam mexer naquela coisa, e era necessário marcar hora para experimentar o navegador, ferramenta que acabara de surgir. 

Não sou um editor nostálgico, daqueles que ficam se lamentando “ah, no meu tempo era melhor, agora tudo está confuso etc.”. Nada disso. Gosto de olhar para frente e abraçar as inovações no seu melhor uso e para o aprimoramento das rotinas e dos trabalhos. Ao mesmo tempo, sou convicto de que devemos, nessa jornada, levar na nossa mala de bordo os aprendizados e experiências que vão ajudar a iluminar e até a entender (e, por que não, influenciar) esse caminho. Mas que seja uma bagagem com espaço para acolher novidades, em especial novas formas de fazer as tarefas que já se realizavam antes. 

Toda alteração tecnológica altera o nosso modo de fazer as mesmas tarefas e atividades que fazíamos anteriormente. Vivi isso na “Folha” quando as antigas pranchetas do paste-up (sistema de montagem de páginas em que textos, fotos e artes eram colados numa matriz de cartão, antes de serem fotografadas e virarem chapas de impressão) foram substituídas por terminais de computador. Bem, um pouco antes, cheguei a conviver com máquinas de escrever e com as fitinhas amarelas do telex. Agora, a montagem das páginas ganhava autonomia e velocidade. 

Essa é uma característica marcante e presente em toda novidade tecnológica: ela concentra tarefas, adicionando agilidade e produtividade. Mas a transformação que estamos vivendo agora com os softwares generativos da base de códigos conhecida como Inteligência Artificial (IA) está introduzindo um outro tipo de movimento: ela altera a forma de pensar. E isso é crucial, para o jornalismo e todas as demais frentes do conhecimento humano. 

Uma forma produtiva de entender os impactos, sejam potenciais e futuros, sejam os que já estão no nosso dia-a-dia, é analisar seus efeitos nos processos. Essa é uma abordagem útil e necessária em muitas ocupações, mas principalmente no jornalismo, que não é propriamente uma ciência, mas uma prática, que empresta conceitos de muitas outras disciplinas. Esse embasamento teórico é amplamente detalhado por Nicholas Lemann (que foi reitor da Escola de Jornalismo da Columbia University), Johh Maxwell Hamilton e Jean Folkerts no livro “Educando Jornalistas: um novo apelo à tradição universitária” (Columbia University Press, 2013). Nessa obra seminal e inspiradora para todos que ensinam, eles abordam o fato de que o jornalismo não possui um método científico fechado, leis universais ou uma base de dados puramente teórica que o classifique como uma “ciência” isolada. Em vez disso, a profissão é por eles descrita como uma prática social e intelectual baseada em convenções, métodos de verificação e técnicas de investigação. Como o jornalismo não é uma ciência própria, argumentam, ele deve “tomar emprestado” o conhecimento de disciplinas como economia, ciência política, sociologia e estatística, entre outras. O papel do jornalista é aplicar o rigor dessas disciplinas à sua prática diária de reportagem para produzir informação validada e profunda.

Isto posto, vamos entender o conjunto amplo de processos que sustentam essa prática em duas frentes, amplamente conhecidas: a apuração e a edição.

Na apuração, na coleta, no data gathering, na confrontação entre fontes, na arqueologia dos números e dos fatos, o uso da IA veio para acelerar exponencialmente aquilo que os buscadores revolucionaram a partir do final da década de 1990, quando nomes como Yahoo e Google aterrissaram nas redações. Aqui, uma história que gosto de lembrar em sala de aula. Um pouco antes dos buscadores, ainda como repórter de Economia & Negócios na “Folha”, ao me preparar para entrevistar um ex-ministro da Fazenda, subi um andar acima, ao Acervo, e desci com uma pasta empoeirada contendo 10 cópias amareladas das entrevistas mais recentes concedidas pelo ex-ministro. Anos depois, centenas de links do Google me levariam às últimas manifestações da tal figura pública. Meu comentário para os estudantes: sobre minha então mesa de trabalho, que não tinha telefone tocando nem rede social para eu interagir, ou seja, nenhuma interrupção à minha espreita, as tais entrevistas foram lidas atentamente e em profundidade. Não daria para garantir a mesma atenção, tempos depois, diante das centenas de links. E o que dizer de hoje, com a possibilidade de todas as entrevistas concedidas, no Brasil e no mundo, pela mesma figura pública, se oferecerem lidas, editadas e resumidas por um agente de IA? 

Com mais e mais possibilidades que se retroalimentam à velocidade da luz, o processo de apuração pode e já está acelerando exponencialmente as buscas por fatos, citações, dados e números. 

O que dizer do processo de edição? Falo aqui na acepção desse termo, em torno não apenas das atividades, mas em especial do olhar que juntos vão construir a forma final daquilo que foi levantado e que será oferecido à sociedade na roupagem de textos, áudios e vídeos, para ficar nessas três matrizes básicas de veiculação de conteúdo. Aqui eu defendo, com plena convicção, a prevalência do toque humano. Tenho experimentado exemplos generativos que, mesmo diante de prompts sofisticados, produzem peças que, na minha amostra e a meu ver, apresentam muitos problemas, entre os quais destaco:

. construções textuais aparentemente convergentes, mas que erram na escolha entre os domínios coordenados e subordinados, oferecendo um raciocínio que busca ser harmonioso, mas que ignora conflitos inerentes ao tema em discussão;

. erros e exageros, nem sempre facilmente detectáveis, na adoção e na colocação de adjetivos, esses clássicos inimigos do jornalismo;

. em áudios e vídeos, adoção de trilhas e de padrões de design que desprezam a conjuntura e a natureza do fato e do ator que o dissemina, por exemplo, infantilizando imagens e tons quando o assunto em pauta não comportaria tal posicionamento.

   Tudo isso sem contar a decisão (somente humana) de, por exemplo, decidir que “é melhor que o tom dessa reportagem fique assim, pois amanhã o Congresso irá se reunir para debater esse tema, e nesse diapasão soará mais adequada”. E as decisões de ritmo. Em suma, decisões do autor. 

Ora, dirão, eu poderia, em camadas e prompts sucessivos, interagir com o agente de forma a obter esses resultados todos. OK. Mas o toque humano sempre prevalecerá. Não que o ato humano não seja importante no processo de apuração. É, e muito, no direcionamento das buscas e das pesquisas. Mas no front da edição é e será ainda mais. 

Esse é um assunto que tenho debatido intensamente em sala de aula. Nossos estudantes precisam aprofundar essa consciência, para o bem delas, deles e do próprio jornalismo.

Ricardo Gandour é professor da ESPM-SP. É jornalista, engenheiro e mestre em Ciências da Comunicação. Foi diretor nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S.Paulo” e na Rede CBN de rádios. Foi visiting scholar na Columbia Journalism School (EUA). Membro do conselho do Columbia Global Center no Brasil. Autor de “Jornalismo em Retração, Poder em Expansão – A segunda morte da opinião pública” (editora Summus, 2020).

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