
Escritor e jornalista independente, joseph lee é membro da tribo Aquinnah Wampanoag, de uma ilha no estado americano de Massachusetts, Martha’s Vineyard. Em janeiro, durante o trabalho de apuração para um livro sobre identidade e soberania indígena, ele foi ao Alasca. Embora fizesse quase 7 graus Celsius negativos, Lee percebeu que o frio não era intenso como seria de esperar em pleno inverno no Ártico. As temperaturas, muito mais altas do que médias históricas, o levaram a refletir sobre as consequências do aquecimento do planeta e como povos indígenas da região terão de se adaptar para sobreviver às transformações à sua volta.
Essa curiosidade o levou a Bethel, a maior cidade dos condados no oeste do estado do Alasca, onde só se chega de avião ou pelo rio Kuskokwim. Além de via de transporte — por veículos para neve quando o rio está congelado e barcos após o degelo no verão —, o Kuskokwim é essencial para a sobrevivência econômica e o cotidiano da população local. Com as temperaturas subindo, o gelo derrete mais cedo e o clima fica imprevisível por períodos mais longos. Embora a pesca do salmão seja a atividade mais afetada, há outros
motivos de preocupação. Não faz muito tempo, a cidade tomou uma providência inusitada, porém prática, para proteger a população: construiu uma piscina e passou a oferecer aulas de natação.
Pequenas adaptações como essa estão no cerne da série Changing with Our Climate, um especial em cinco partes para a Vox que traz “soluções indígenas para condições climáticas extremas com raízes na história — e no futuro”.
Na introdução, a editora de Lee na Vox, Paige Vega, escreveu que, “embora não haja solução fácil para o planeta (…), algumas das soluções mais eficazes são também as mais simples”. Além das aulas de natação em Bethel, Lee está cobrindo as queimadas prescritivas em regiões propensas a incêndios florestais, a construção de moradias resilientes dentro de trajetórias de tempestades e o mapeamento 3D para localizar fontes de água limpa em comunidades indígenas da Califórnia à Guatemala. “Nem todo mundo está lidando com derretimento de gelo ou temperaturas de 55°C”, disse Lee durante uma conversa. “Mas espero que essa abordagem à adaptação climática seja interessante ou útil — ou, no mínimo, motivo de reflexão”.
Em julho, quando falei com Lee, os Estados Unidos tinham soltado um alerta de calor extremo para mais de 140 milhões de americanos, 69 incêndios florestais consumiam uma área de mais de 2 mil quilômetros quadrados no país e um furacão atingia o sul do Texas em pleno julho, deixando clara a urgência de soluções práticas e imediatas para a questão climática. Para jornalistas, o desafio é respeitar a fonte indígena de muitas dessas soluções sem cair em simplismos ou mistificação. Na conversa com Lee, falamos sobre a cobertura dessa adaptação climática, sobre o que “conhecimento indígena” realmente significa e sobre como evitar estereótipos ao escrever sobre povos nativos. Para maior concisão e clareza, nossa conversa foi editada.
Kevin Lind | Como surgiu o especial Changing with Our Climate?
Joseph Lee: A Vox queria fazer algo sobre eventos climáticos extremos para o difícil período que foi o [último] verão. Eu tive a ideia de ir ver como povos indígenas estão vivendo a mudança climática em diversos cenários de eventos extremos — calor, tempestades, queimadas —, como estão reagindo a esses desafios e que obstáculos estão encontrando ao tentar fazer o que querem fazer, sejam desigualdades e questões históricas ou políticas atuais.
Quando alguém propõe soluções para mudanças climáticas, é comum o foco da discussão se desviar para políticas públicas ou o impacto dessas mudanças. Seu objetivo, com esse especial, era dar destaque a medidas pragmáticas que povos indígenas estão adotando para sobreviver em um planeta em transformação?
O objetivo da série não é negar a existência de problemas estruturais maiores. Sabemos que há grandes debates políticos a travar e que é preciso propor soluções de longo prazo. O que eu sinto é que, no jornalismo climático atual, volta e meia ouvimos dizer que povos indígenas estão na linha de frente da crise climática, que há sabedoria no manejo da terra pelos indígenas, que há um “saber indígena” ou um “saber ecológico tradicional”. Estamos falando disso tudo, mas ainda falta clareza sobre o que esses termos realmente significam. Meu objetivo com esta série é esclarecer o verdadeiro significado e a aplicação prática dessas coisas. O que descobri é que muitas das respostas se dão em contextos menores do que o do debate nacional sobre políticas públicas. E “menor” é relativo: pode ser uma única pessoa, uma tribo ou uma colaboração entre tribos para tocar uma iniciativa. A maioria das pessoas não vê, em seu dia a dia, o impacto de grandes políticas públicas. No caso dos indígenas em particular, muitas das práticas que começam a ganhar visibilidade são, na verdade, coisas que esses povos já vinham fazendo ou tentando fazer há muito tempo.
O conhecimento, o saber ou a história de povos indígenas são comumente retratados como algo místico. Qual o impacto desse estereótipo e o que você fez para evitá-lo ao falar de soluções indígenas para mudanças climáticas?
É evidente que há uma longa história de estereótipos e distorções na representação de indivíduos comunidades indígenas. De certa forma, o modo como falamos de sabedoria indígena, de conhecimento indígena ou de saber ecológico tradicional é uma nova versão desse fenômeno. São conceitos em circulação hoje em dia — que aparecem em políticas públicas, até mesmo em leis —, embora não acredite que as pessoas entendam ou queiram assimilar toda a complexidade deles. Uma das coisas que abordamos nessa série é que o saber tradicional, por exemplo, não significa simplesmente dizer que uma comunidade fazia algo de uma determinada maneira mil anos atrás e que o saber tradicional significa que temos de voltar a fazer isso. Lá atrás, aquela comunidade se adaptava constantemente às suas circunstâncias, assim como povos indígenas continuam a se adaptar hoje — seja em resposta à mudança climática ou ao colonialismo. Nesse sentido, conhecimento e sabedoria indígenas são, basicamente, o que hoje chamamos de adaptação.
Um dos objetivos da série é explorar essa ideia em profundidade e mostraro que significa adaptação na prática. Quando se fala de saber indígena, é comum surgir a ideia estereotipada de algo místico, mitológico, sagrado — o que não quer dizer que não haja um elemento de sagrado no saber indígena. Mas, em geral, indígenas e não indígenas discorrem sobre isso de modo totalmente distinto.
Durante as entrevistas, como suas fontes descreviam o modo como estão se adaptando a diferentes catástrofes climáticas no dia a dia? Será que esse vocabulário ajudaria na comunicação com gente que talvez não entenda ou não acredite na mudança climática, mesmo já estando exposta a condições climáticas extremas?
A maioria das pessoas não está tentando enfrentar ou se adaptar à mudança climática de modo geral.
Nessa série, nosso objetivo é mostrar qual o verdadeiro impacto climático que uma cidade, uma pessoa e uma tribo estão sentindo. Mencionei como o conceito de povos indígenas estarem na linha de frente da mudança climática virou uma espécie de frase de efeito no jornalismo climático. Estamos falando de mais incêndios florestais? De temperaturas mais elevadas? De tempestades mais fortes? De secas? O que realmente estamos discutindo? Às vezes, esses termos grandiloquentes não são tão relevantes quanto as circunstâncias específicas que as pessoas estão vivendo. Um punhado de gente que trabalha com questões climáticas em suas comunidades de origem me contou que, no dia a dia, não ouviam as pessoas falarem de mudança climática. As pessoas falam da água, da pesca, de outras coisas — que, naturalmente, têm relação
com clima. Nem sempre é útil, no plano local, falar de grandes temas quando há problemas ou desafios
muito mais específicos que precisam ser enfrentados.
Sua editora mencionou que você não fez essa série especificamente para um público branco e que buscou evitar o que pode ser um preconceito inconsciente da mídia. Durante o processo de apuração, como você garantiu essa visão sem preconceitos?
Um dos erros que veículos da grande imprensa cometem é simplesmente ignorar um potencial público indígena e não fazer nenhum esforço para falar a esse público ou levá-lo em consideração ao produzir o material. De modo geral, indígenas já estão por dentro de muitas das coisas que saem na mídia convencional sobre indígenas. Não é informação nova. Pode ser que um meio ou um jornalista descubram algo e achem que a informação é novidade. Mas é novidade para acomunidade? É novidade para um certo grupo de leitores? Outros veículos tradicionais já deram a informação? Muito do que vemos publicado é mais do mesmo. Eu sempre tento pensar se determinada informação teria interesse para alguém da minha tribo ou de outras tribos, se é algo que traria algum aprendizado. Se é uma causa comum, uma ideia nova, uma solução nova — ou só uma historinha interessante sobre povos indígenas.
Como jornalistas, é nosso papel explicar as coisas para o leitor. Mas também acho que podemos exigir
um pouco mais do leitor não indígena. Não é preciso, por exemplo, estar sempre partindo do zero. É
possível fazer a conversa avançar um pouco mais. E é importante não recorrer a especialistas não indígenas para validar vozes indígenas. É algo que vemos com frequência: um organizador local ou um líder tribal dizem algo e, na sequência, o texto traz as aspas de um acadêmico branco de alguma universidade dizendo que seu trabalho confirma aquilo que foi dito. Acho que simplesmente não precisamos disso. Há acadêmicos indígenas espetaculares — estudiosos e cientistas com formação convencional — que podem discorrer sobre esses assuntos com muito mais propriedade.
O que você sugere para evitarmos estereótipos?
Há muita complexidade em comunidades e tribos indígenas e um grande contexto histórico. Sou um jornalista indígena, escrevo sobre povos indígenas, mas escrevo sobre tribos e comunidades que nem sempre são as minhas. Não é chegar e, simplesmente por ser um jornalista indígena, achar que sei de tudo. É possível que eu
tenha um modo de encarar as coisa ligeiramente distinto do de um jornalista não indígena, mas preciso fazer
o mesmo esforço para ganhar a confiança das pessoas, estabelecer relacionamentos e chegar à informação.
Outro ponto importante é ser o mais específico possível. Há pouquíssima coisa que permite generalizações do
gênero “nativo-americanos têm razão em…” ou “indígenas acham que…”. E, ainda que fosse possível generalizar, a história talvez não seja muito interessante. Um bom jornalismo significa dar espaço a vozes humanas [distintas]. Quanto mais vozes, melhor será a história — e mais o jornalista evitará estereótipos, clichês ou palavras vazias. É algo que está relacionado à questão maior de não encarar indígenas como indivíduos plenos e de não reconhecer tribos como nações soberanas, de não perceber a complexidade
dessas questões. E preciso fazer um trabalho sério de realmente entender quem é seu interlocutor. É um líder
da tribo? É um ativista da comunidade? É simplesmente um membro da comunidade? Ninguém simplesmente pegaria um sujeito qualquer em Boston para falar em nome do estado de Massachusetts. Mas, por algum motivo, isso tende a acontecer com comunidades indígenas.
Que conselho você daria para quem quer cobrir comunidades indígenas de forma responsável?
É fundamental se preparar bem antes de começar a escrever para garantir que você entenda o assunto, que não está reproduzindo informações prejudiciais e que tenha em mente quem é seu leitor. Está escrevendo para um público indígena? Para um público não indígena? Como isso vai influenciar o texto? É um esforço contínuo. Há quem fale em “jornalismo paraquedista”. Não sei se esse é o termo mais apropriado, mas definitivamente tem muita gente cobrindo temas indígenas de forma esporádica. Em geral, isso não dá muito certo, pois é um trabalho que leva tempo. Qual o objetivo do seu trabalho? É simplesmente escrever sobre algo curioso que você viu ou fazer um jornalismo com um propósito que possa ter impacto? Para que haja impacto, é preciso entender que essa é uma área específica [de cobertura], mas que tem interseção com
várias outras — clima, política, economia —, não importa como queiram organizar essas editorias. Isso exige investimento tanto de repórteres como de editores — mas também investimento de veículos e organizações de comunicação. Acho que estamos vendo isso na prática, cada vez mais, com a criação de editorias de assuntos indígenas. Mas é preciso mais. Não basta criar essas funções ou editorias, é preciso apoiá-las
com mais autonomia e mais recursos.
Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024