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Trabalho tóxico

Com alteração climática, jornalismo precisa aprender a cobrir novos setores — e novos escândalos

25 outubro 2026

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Michelle pegou uma infecção respiratória tão séria que precisou largar o emprego. Marcos teve os braços, o tronco e as pernas tomados por uma urticária que simplesmente não desaparecia. Santos, que já fora um craque no futebol, adquiriu uma asma crônica que o impede de brincar com o filho por mais de cinco minutos. O que esses três trabalhadores têm em comum é ter emigrado de países da América Latina e do Caribe
para os Estados Unidos e trabalhado — em alguns casos, por quase duas décadas — na reconstrução de cidades americanas devastadas por cheias, furacões e incêndios florestais Nossa equipe do projeto de jornalismo investigativo Columbia Journalism Investigations, ou CJI, fez um levantamento dos riscos de longo prazo à saúde enfrentados por esses trabalhadores pela exposição a contaminantes liberados durante desastres agravados por mudanças climáticas. Na reportagem (“Toxic Labor”, ou “Trabalho Tóxico”), feita em parceria com o Center for Public Integrity e a iniciativa Futuro Investigates, descobrimos que, ao explorar brechas na legislação, empresas de reconstrução deixam trabalhadores vulneráveis a substâncias tóxicas como mofo, amianto e chumbo, não raro sem capacitação ou equipamento de proteção. Com isso, muitos estão adoecendo.

O setor de reconstrução pós- -desastres, que movimenta cerca de US$ 150 bilhões, depende fortemente da mão de obra imigrante. E esse é apenas um dos setores que crescem exponencialmente em meio a cheias, furacões e incêndios florestais, cada vez mais frequentes e intensos. A explosão dessa atividade e seus trabalhadores deixam claro que a crise climática traz novos desafios — e novas pautas — para profissionais do jornalismo. E técnicas de reportagem inovadoras também.

Ao longo de um ano de investigação, descobrimos que métodos de apuração que envolvem o público e a colaboração entre repórteres e pesquisadores permitiram entender a realidade desses trabalhadores mesmo na ausência de dados oficiais. Logo no início da apuração, vimos que autoridades públicas tinham soado o alarme sobre a exposição de trabalhadores envolvidos na atividade de reconstrução após desastres desde o furacão Katrina. No entanto, não há dados (nem no plano estadual nem no federal) sobre a exposição a contaminantes, nem sobre a saúde desses trabalhadores. Decidimos criar uma base de dados própria — unindo-nos a uma tendência que vem crescendo no jornalismo climático. Em conversas com toxicologistas, profissionais de saúde e segurança ocupacional e grupos de defesa de trabalhadores, montamos
um questionário para aplicar a indivíduos que trabalham na reconstrução pós-desastres para saber mais
sobre sua experiência de trabalho e saúde. Com a ajuda dos especialistas, criamos perguntas que captassem a sutileza e a complexidade do assunto.

Com esse questionário (traduzido para o espanhol e o português), poderíamos coletar dados inéditos que viriam reforçar os relatos feitos a nós por trabalhadores, transmitindo mais confiança ao público leitor. Além disso, poderíamos mostrar como essas experiências eram parte de um padrão. Mas isso foi só o começo. Sabíamos que, para conquistar a confiança e a adesão dos trabalhadores, seria preciso tempo e esforço,
especialmente por meio de interações pessoais — além, claro, da promessa de anonimato. Em parceria com a equipe dedicada a entender e engajar o público da organização Public Integrity e com a repórter María Inés Zamudio, fizemos cartazes multilíngues com links para o questionário e espalhamos esse material por igrejas, grupos de trabalhadores, lavanderias — até mesmo em paredes de banheiros.

Também fomos a localidades sendo reconstruídas após furacões para aplicar o questionário em pessoa,
visitando locais que atraem gente em busca de emprego (laborer corners) em Nova Orleans, por exemplo, e indo a encontros de trabalhadores na esteira da passagem do furacão Ian por Fort Myers. Zamudio passou meses cultivando relacionamentos com trabalhadores por telefone.

Em sete meses, tínhamos cem questionários respondidos. Especialistas que analisaram os resultados anonimizados ficaram impressionados. Embora julgassem que os dados eram desoladores, também diziam que a reportagem poderia abrir caminho para a liberação de verbas cruciais para estudos nas áreas de saúde e segurança ocupacional e ambiental.

“Acredito que a situação vá piorar (…) a menos que se tomem medidas para reduzir a exposição [desses
trabalhadores]”, disse Linda Birnbaum, uma ex-diretora do National Institute of Environmental Health
Sciences
, nos Estados Unidos.

No trabalho de apuração, descobrimos soluções para abordar o problema dessa força de trabalho basicamente oculta. Embora a análise dos dados tenha ajudado a expor uma correlação entre condições de trabalho em locais atingidos por desastres e problemas de saúde de trabalhadores, provar causalidade requer estudos científicos de longo prazo. Vários toxicologistas se mostraram interessados em monitorar a exposição prolongada de trabalhadores a contaminantes — e seus problemas de saúde. Não seria fácil, pois, segundo eles, esse trabalhador é transitório e costuma se deslocar de um local de desastre para outro. Mas eles acreditam que os estudos bancados com verbas públicas seriam um precursor natural para normas de segurança melhores.

Já há iniciativas legislativas destinadas a ajudar esse trabalhador. Em setembro de 2023, a deputada americana Pramila Jayapal, democrata do estado de Washington, apresentou pela segunda vez um projeto
de lei federal, o chamado Climate Resilience Workforce Act. Se aprovado, concederia a esses trabalhadores um status migratório temporário — além de acesso a capacitação e assistência médica. Mas, como explicou Jayapal em “Toxic Labor”, ainda que fosse aprovado pelo Congresso americano, o projeto não resolveria a questão da responsabilidade de empresas, nem taparia lacunas nas normas de proteção ao trabalhador da Agência Americana de Saúde e Segurança Ocupacional, a Occupational Safety and Health Administration (OSHA).

A OSHA vem elaborando normas para o trabalho na recuperação pós-desastres — normas que tapariam brechas na regulamentação envolvendo uma série de riscos (incluindo capacitação e equipamentos de segurança para proteger o trabalhador dos mesmos) — há 17 anos. Só que a normativa omite essa população de trabalhadores, focando, em vez disso, nos primeiros socorristas. Em outras ocasiões, o Congresso já exigiu que a OSHA instituísse novas normas com celeridade, criando programas de capacitação e exigindo que empregadores forneçam equipamentos de proteção específicos para a situação — algo que poderia fazer por essa mão de obra também.

Enquanto essa discussão se arrasta, certas organizações de defesa do trabalhador vêm agindo para preencher a lacuna, mostrando ao trabalhador como se proteger — algo que caberia ao empregador. Mas, com poucos recursos, o impacto desses grupos é limitado.

Especialistas por nós consultados acreditam que um foco constante da mídia sobre esse setor poderia ser o catalisador para transformar essas soluções em realidade. Embora nossa investigação tenha abrangido todo o país, há inúmeras situações no plano local que ainda precisam ser investigadas e relatadas. Na costa oeste dos Estados Unidos, incêndios florestais cada vez mais graves e frequentes trazem consigo um universo próprio de riscos. E, à medida que cheias se tornam mais comuns em distintas partes do país, comunidades que nunca viveram um desastre natural começarão a enfrentar o problema — e a se valer do trabalho dessa mão de obra vulnerável.

Como parte de nossa colaboração com a Public Integrity, criamos uma metodologia detalhada para que meios locais, cuja área de cobertura inclua localidades com grande concentração de imigrantes, possam começar a investigar o setor de reconstrução pós-desastres em suas próprias comunidades. Para começar, um repórter não precisa ir muito longe: estar atento ao que acontece em pontos de aglomeração de imigrantes ou em estacionamentos do comércio após um furacão, uma enchente ou uma queimada já pode dar pistas. Quem trabalha na reconstrução de zonas atingidas por desastres vai para esses locais em busca de empregos de
baixa remuneração.

Colocar a experiência de trabalhadores e seus defensores em primeiro plano, o que pode ser feito com o cultivo de relações sólidas e autênticas com fontes, vai trazer mais profundidade à cobertura da reconstrução pós-desastres. Essa é mais uma das muitas arenas que surgem em um mundo em constante transformação. Técnicas criativas de reportagem podem — e devem — ser usadas para cobri-las de maneira eficaz. ■

Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024.

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