
Nos estados unidos, organizações jornalísticas sem fins lucrativos como ProPublica, The Marshall Project e The19th transformaram o cenário da mídia na última década. Mas a Associated Press (AP) está na área há
muito mais tempo. Fundada há 178 anos, a AP opera como uma cooperativa sem fins lucrativos. E seu impacto é inegável: a AP tem um papel fundamental na indústria jornalística americana, cobrindo acontecimentos nacionais e internacionais, suprindo veículos nacionais com notícias locais, fazendo a cobertura de eleições e anunciando os vencedores. Diferentemente da nova safra do jornalismo sem fins lucrativos, que vive de doações e subsídios, a AP é bancada pelos cooperados: organizações jornalísticas do mundo todo que pagam para usar seu conteúdo. Mas é algo que está mudando.
A proliferação de desertos de notícias que se espalharam pelos Estados Unidos não faz mal só à democracia — é ruim também para o modelo de negócios da AP. Quanto menor o número de organizações jornalísticas, menor o de membros da AP — e, portanto, menor sua receita. Hoje, são meios nacionais e internacionais de radiodifusão que dependem do conteúdo produzido pela AP, sobretudo vídeos, que garantem sua sobrevivência. A resposta da AP foi buscar novas fontes de recursos para sustentar a cobertura de temas cruciais.
Doações e subsídios de entidades filantrópicas ajudaram a bancar a cobertura da AP sobre democracia, ciência, religião, clima e saúde. A agência também recebe apoio filantrópico de fundações com foco
na mídia, particularmente a Knight Foundation. Ao todo, a AP recebeu mais de US$ 61 milhões em recursos de entidades filantrópicas nos últimos sete anos.
Embora verbas concedidas por fundações ainda representem uma pequena parcela da receita total da AP, é uma fonte que está crescendo e, segundo sua editora-executiva, Julie Pace, poderia crescer ainda mais.
Pace está especialmente empenhada em atrair mais apoio para a cobertura de assuntos nas esferas estadual e municipal nos Estados Unidos. “Há uma clara necessidade de mais jornalismo — mas de um jornalismo de alta qualidade, isento, independente”, diz Pace. “Vamos tentar levantar recursos para enfrentar essa crise.”
Para isso, a AP pretende criar uma nova organização. Seria uma entidade sem fins lucrativos (uma 501(c)(3), pelas normas americanas), que, segundo Pace e outros, vai tornar mais fácil atrair e administrar um fluxo maior de contribuições. A nova entidade — cuja estrutura e missão ainda estão sendo definidas — seria um canal para o investimento filantrópico na AP e contribuiria para melhorar o ecossistema de jornalismo e informações locais.
A nova entidade será regida por um conselho independente e administrada por um vice-presidente de
desenvolvimento filantrópico, um posto que no momento está vago. Esse cargo foi ocupado até recentemente por Lisa Gibbs, que saiu da AP para assumir a presidência do Pulitzer Center, que apoia o jornalismo independente por meio de subsídios e programação educacional.
Em 2017, Gibbs ajudou a garantir as primeiras subvenções de fundações à AP, verba que foi usada para a cobertura nas áreas de saúde e ciência. Gibbs negociou parcerias com a ONG Report for America —
o que permitiu à AP contratar mais 17 repórteres para cobrir legislativos estaduais — e com a Frontline,
que produziu com a AP o documentário 20 Days in Mariupol, que levou o Oscar.
Em maio de 2020, no início da pandemia de covid-19, Gibbs organizou um encontro virtual que conectou a AP com importantes fundações. Várias se dispuseram a financiar o jornalismo em áreas de especial interesse, incluindo clima e educação. Segundo Gibbs, o fator decisivo foi a penetração mundial da AP, bem como sua cobertura isenta. “Tanto Fox News como MSNBC usam a AP”, frisa a executiva.
Agora que a meta é atrair recursos filantrópicos para bancar o jornalismo no plano local, Pace afirma que a estratégia é mapear o terreno nacional para preencher lacunas. Uma área para a qual Pace acha que a AP pode contribuir é a “cobertura dos meandros da gestão pública em nível estadual”, sobretudo no que se
refere à “accountability”.
Em março, já se preparando para a eleição para presidente nos Estados Unidos, a AP anunciou parcerias com uma série de organizações sem fins lucrativos locais — incluindo Cal Matters, Honolulu Civil Beat e The Texas Tribune —, o que permite que a AP distribua o material produzido pelas parceiras em escala nacional. Em estados que contam com meios jornalísticos fortes, Pace pretende ampliar essa iniciativa. Já em outros, onde
os repórteres da AP volta e meia são os “únicos”, a executiva espera fortalecer o jornalismo da própria AP.
Pace acredita que o jornalismo de dados e análises da AP, além do acesso a um conteúdo visual e a uma cobertura robusta, podem ajudar meios de comunicação locais de todo o país. Há uma séria e natural preocupação com o futuro do jornalismo local nos Estados Unidos — e com o setor como um todo, marcado por cortes de pessoal, consolidação e escândalos. Mas também há razão para otimismo. Em todo o país, organizações sem fins lucrativos estão fazendo um jornalismo excepcional e, em certos casos, encontrando
um público importante. Quem vem apoiando com recursos esse parcial ressurgimento sente, naturalmente,
orgulho dessa iniciativa. Graças a uma campanha batizada de Press Forward, uma coalizão de financiadores encabeçada pela MacArthur Foundation se comprometeu a investir mais de US$ 500 milhões para colaborar para meios locais nos próximos anos.
Mas a AP também tem um papel a desempenhar no fortalecimento do jornalismo nos planos estadual e municipal. “Não é fácil, nem vai ser rápido ou simples”, diz Pace. “Mas vemos isso como o próximo passo e a continuação da missão que mantemos há tanto tempo.” ■
Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024