
O que explica o sentimento de saudade de um jornal que saiu de cena em 2021? Justamente num período em que as pessoas abandonam a leitura de notícias para informar-se pelas redes sociais? Esse sentimento é expresso por alguns ex-leitores do El País Brasil, que teve uma vida curta, mas intensa, entre novembro de 2013 e dezembro de 2021. Quando alguém menciona o jornal em rodas de conversa, corre o risco de ouvir: “Que falta faz o El País…” Vira e mexe, esses registros aparecem também nas redes sociais. Alguns meses atrás, na página do El País Brasil no Instagram, que ainda não foi desativada, alguém escreveu: “Poderiam voltar com a edição em português”.
Não tenho respostas exatas para entender essa nostalgia. Talvez algumas pistas. A primeira é que a memória é traiçoeira, e traz registros afetivos editados. Talvez as pessoas sintam falta de um tempo em que ainda se acreditava que o ano de 2013 era um marco para a democracia. Em que o vídeo ainda não dominava o mercado de mídia como um todo.
Não havia também a presença de mais de 2 milhões de influenciadores no Brasil, como mostrou no ano passado a plataforma Influency.me. E nem existia a Inteligência Artificial ao alcance de todos. Esses dois adventos vieram embaralhar a oferta de notícias. Um portal digital parecia suficiente. Agora, tudo parece mais confuso, e a leitura de notícias virou uma montagem de quebra-cabeças.
Venho estudando as outras possibilidades que podem explicar uma certa sensação de orfandade de pessoas que se identificavam com o jornal. O El País Brasil alcançou audiência notável, e um honroso sexto lugar em audiência de sites de notícias em alguns momentos.
Uma das razões pode ter sido seu final abrupto, sem prévio aviso. Se alguém sai de cena quando está no auge, deixa um registro eterno de uma missão inconclusa. É como a partida de um ser querido muito jovem. Memórias boas de um tempo passado, e tristeza de um futuro ceifado antes do tempo. O jornal acabou em 14 de dezembro de 2021. Nem mesmo a equipe brasileira, nem eu, enquanto diretora na ocasião, tínhamos a informação sobre a iminência desse desfecho.
Outra hipótese é o número reduzido de textos diariamente, em comparação com outros jornais. Seria um ponto fraco, quando quantidade ainda é uma métrica de qualidade. Para alguns leitores, parecia ser o cardápio ideal para se sentir bem informado.
“Por alguma razão que eu não entendia, naquele momento o único jornal que eu conseguia ler, sem a sensação de que tinha algo importante sendo omitido, era o El País”, escreveu um jovem na rede social X, no último dia 10 de outubro.
O El País Brasil só publicava uma média de 10 textos por dia. Às vezes 5, outras, 18. Era, certamente, um número limitado de textos, se comparado ao que a grande imprensa publica, contados às centenas. A escolha das pautas tinha de ser muito certeira.
A opção por poucas matérias no portal não foi pensada como estratégia de competição. Era o que se podia publicar diante de um orçamento enxuto para traduzir textos. A tradução era feita por uma equipe de tradutores profissionais – algo que a IA iria ajudar a baratear nos dias de hoje. Mas na época, era um custo alto para a edição brasileira.
Essa limitação levava a um exercício diário de curadoria inteligente. Chegamos a uma fórmula intuitiva, numa mescla de matérias produzidas pela gama de correspondentes no mundo, traduzidas ao português, ao lado de outras produzidas pela equipe local do portal de notícias. O saldo editorial ambicionava cobrir o essencial.
Poderia discorrer sobre outras nuances que explicariam os registros afetivos. Mas de todas elas, eu apostaria numa hipótese meio óbvia para quem acredita no jornalismo como sustentáculo da democracia. Havia uma clareza de propósito. O jornal desenhava uma perspectiva futura em que os princípios democráticos ganhavam a centralidade das pautas, fossem elas de cultura, de cotidiano, ou de política, e claro, de internacional.
Essa trilha era desenhada de muitas formas. Em grandes coberturas globais que colocavam o Brasil mais conectado com as conquistas democráticas mundo afora. Em artigos que guardavam um debate rico sobre valores para uma sociedade saudável. Ou, em matérias que faziam a escuta das ruas, dos protestos, e das demandas da sociedade brasileira por mais direitos.
Havia manifestação das Mães de Maio, o movimento periférico de São Paulo de mães que perderam seus filhos executados pela polícia? O El País estava lá. Havia greve de policiais no Espírito Santo, como ocorreu em 2017? Uma jornalista da equipe foi enviada para lá.
Havia uma manifestação pedindo intervenção militar na av. Paulista? Lá estávamos. Era preciso ouvir as ruas sempre. O que havia por trás dos cartazes, quem os carregava, o que representavam essas cobranças. Era essa a cultura e o espírito do jornal espanhol, fundado em maio de 1976 por Jesus Polanco, José Ortega Spottorno, e o jornalista Juan Luís Cebrián.
O El País nasceu em Madri, capital espanhola, sob um forte compromisso com a defesa da democracia enquanto regime de governo, após mais de 40 anos de ditadura do general Francisco Franco (1939-1975). A edição de papel de 48 páginas em formato tabloide veio a público durante a transição à democracia para dar expressão à ansiada liberdade reprimida de “milhões de espanhóis”, como me lembrava sempre meu querido colega Juan Arias, um dos primeiros repórteres do jornal. Em poucos anos, o novo jornal espanhol tornou-se líder de mercado em seu país, e uma referência para o mundo.
Nos anos 2000, passou a investir nos planos de internacionalização. O jornal havia se instalado em março de 2013 no México, com a redação do El País Américas, que dava ênfase na cobertura latino-americana, incluindo os Estados Unidos. Chegar ao Brasil era questão de tempo. E as jornadas de junho daquele ano mostraram que o momento havia chegado.
Os brasileiros estavam à flor da pele naquele momento, insatisfeitos diante dos investimentos vultosos do governo federal do PT nos estádios da Copa do Mundo, que aconteceria no Brasil no ano seguinte. A alta da inflação daquele período, e o descolamento do partido, representado pela então presidente Dilma Rousseff, da insatisfação das pessoas, foi gerando uma combustão que explodiu em protestos nas ruas do Brasil em junho daquele ano. O mundo vivia um ciclo de protestos populares, contagiados pela Primavera Árabe, que começou em 2010, e contagiou outros países.
Havia um desejo latente de participar de transformações, incentivado pela rede social da vez, o Facebook. No Brasil, a faísca veio do aumento da passagem de ônibus em São Paulo, que havia subido R$ 0,20. Um grupo de jovens, que formavam o Movimento Passe Livre (MPL), defendia naquele momento a isenção da passagem aos estudantes. O MPL passou a promover atos no final de maio, e princípio de junho, para cobrar um projeto de gratuidade a estudantes. Mas havia muitas queixas reprimidas além do aumento da passagem. E os atos que, em princípio, eram motivados pela alta de R$ 0,20, vieram a se multiplicar em protestos “contra tudo e contra todos”, numa das maiores manifestações populares que o país já viu.
O cerne das jornadas, já muito debatidas desde então, era por mais direitos e menos corrupção. Mais educação, mais saúde, mais dignidade. O El País na Espanha leu ali que era a oportunidade de aterrissar no Brasil. Não foi uma escolha aleatória. Milhares de brasileiros começaram a acessar suas páginas naquele junho de 2013 para ver como a imprensa internacional estava cobrindo os protestos de junho. Àquela altura, a imprensa brasileira foi pega de surpresa pelas manifestações nas ruas. O Brasil da redemocratização não era afeito a ir às ruas, com exceção dos “caras pintadas”, jovens que foram apoiar o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992).
Mas os atos de junho foram crescendo nas ruas. No dia 7, jovens fecharam uma das vias da avenida Paulista, em São Paulo, e houve até um quebra-quebra em alguns pontos da região. A reação dos jornais foi culpar os jovens por “vandalismo” e “violência” em suas manchetes, sem ouvir as queixas dos manifestantes. Nem diferenciar quem estava agindo com o uso da força de quem estava apenas levando uma pauta legítima às ruas. Os protestos se repetiram nos dias seguintes, e a polícia militar entrou em cena, incentivada, inclusive, por editoriais de jornais que pediram uma “ação mais dura” contra os manifestantes.
A cobertura jornalística passou a ser acidamente criticada. Havia mais preocupação com o patrimônio destruído do que com as causas que estavam atraindo cada vez mais gente aos protestos. Foi quando a imprensa internacional passou a ser enaltecida pelos manifestantes, e quem apoiava a revolta nas ruas. Os brasileiros passaram a buscar informações no exterior pois perderam a confiança na cobertura local.
Foi assim que o portal do jornal El País da Espanha começou a ser acessado por brasileiros. A versão virtual não cobrava assinatura, e então centenas de milhares de leitores brasileiros passaram a acessar a home do portal em espanhol, como contou Javier Moreno, então diretor do El País Américas, durante o lançamento do El País Brasil. Essa alta repentina chamou a atenção da direção em Madri. Era preciso aproveitar o momento de efervescência para trazer a marca ao Brasil.
O El País chegou com o diretor Luís Prados, jornalista espanhol da região de Andaluzia, que trabalhava no El País há algumas décadas. Em dois meses, Prados entrevistou e contratou repórteres que iniciaram a saga por construir do zero a edição brasileira. Três jornalistas espanholas, que vieram da matriz, se uniram à trupe local. Teria como editora-chefe uma jornalista brasileira (no caso, eu, chilena naturalizada), pois era preciso ter alguém com olhos locais para orientar as decisões da direção. E assim nasceu o El País Brasil, com 11 pessoas fixas durante seu lançamento. O jornal foi ao ar em 26 de novembro de 2013 com uma entrevista feita com a então presidente Dilma Rousseff, além de textos assinados por Eliane Brum e Luis Ruffato, que se tornaram colunistas desde o início do projeto.
A partir dali, a equipe seguiria o Manual de Redação (Libro de Estilo) do El País. As regras deixaram clara a ordem de prioridades. No primeiro capítulo do manual, há uma lista de 58 critérios éticos. Vão desde não enviar perguntas prévias a um entrevistado, até o reconhecimento rápido de erros que eventualmente fossem publicados, “sem recursos retóricos”. Mas o primeiro de todos é “defender a democracia plural, segundo os princípios liberais e sociais”, e “guardar a ordem democrática e legal estabelecida pela Constituição.”
Essa diretriz fez toda a diferença. Era preciso olhar para a base popular com olhos altivos. Buscar temas que vislumbrassem os princípios da nossa Constituição. A régua era fácil de entender. Aos poucos, o jornal foi ganhando a confiança de um leitor exigente, antenado com as tendências internacionais.
A edição brasileira não cobrou assinatura até 2020, o que garantiu um crescimento contínuo do número de leitores, até se tornar uma das unidades mais importantes para o grupo. O Brasil foi o segundo mercado em audiência por vários anos, entre todos os países em que o jornal era lido. Até 2021, somava uma base de cerca de 9 milhões de usuários únicos ao mês, com picos que chegaram a superar os 20 milhões. Tinha uma maioria de leitores jovens, de até 35 anos.
Os textos da rede internacional de correspondentes eram um destaque primoroso, incluindo os assuntos relativos aos nossos vizinhos do continente. Trabalhos acadêmicos já mostraram que a imprensa nacional sempre deu mais visibilidade a temáticas negativas ao abordar a América Latina. Isso colocava a edição brasileira em um patamar competitivo entre os leitores interessados em ampliar sua visão do mundo. Para a redação, o desafio era encontrar assuntos em comum com os países vizinhos que aproximassem o Brasil do resto do continente.
Poderia me estender abordando outros diferenciais, como o texto mais solto e afetivo. Mas tudo que eu citar vai servir mais como um laboratório de ideias, do que como uma experiência bem-sucedida. Se o El País Brasil teve sucesso editorial, o mesmo não se pode dizer do ponto de vista comercial. Não alcançou a sustentabilidade financeira como se esperava inicialmente. A pandemia de covid-19 entrou como a agulha que riscava o disco de vinil, e interrompia a música. Até então, a empresa contava com uma equipe comercial responsável por rentabilizar o conteúdo e a marca El País. O foco era a publicidade programática, banners nas páginas do jornal. A equipe ficava sob o comando da área comercial do El País, baseada em Miami. Mas a conta nunca fechou. A equipe comercial foi trocada três vezes. Na última troca, resolveu apostar as fichas na cobrança de assinaturas. Mas fechou o conteúdo em… 2020. E o resto a gente já conhece.
É difícil imaginar que se possa reproduzir uma experiência parecida com a que foi o El País Brasil. Jornalismo demanda muito dinheiro, aposta em reportagens de fôlego, e uma fidelidade aos princípios democráticos. Esse compromisso costuma empurrar os veículos para um rótulo rechaçado pela elite financeira do Brasil: a de um veículo progressista. Mesmo assim, uma pesquisa elaborada por acadêmicos da Universidade de São Paulo em 2016 revelou um equilíbrio de leitores da edição brasileira.
O estudo Perfil Digital dos Manifestantes de 13 e 18 de março daquele ano, data das manifestações pró e anti-impeachment da presidente Dilma Rousseff, buscava saber quais veículos eram lidos pelos manifestantes dos dois campos políticos. O El País Brasil ficava exatamente no centro da lista de mídias listadas ali.
Anos depois do fim do jornal, guardo um sentimento de utopia e tristeza pela sua existência. A utopia de que é possível fazer um jornalismo de qualidade defendendo a democracia, que inclui as demandas populares como eixo central. Faz muita falta num país como o nosso – basta ler as repercussões da aprovação da jornada de trabalho 6X1 para ver que a imprensa brasileira só ouve os patrões reclamando, e não dá espaço para a grande massa que se beneficia.
Guardo, também, uma tristeza ao concluir que foi preciso um veículo de fora vir mostrar que esse jornalismo é possível. Num momento em que se descobre a “vorcarização” de veículos brasileiros, com um banqueiro corrupto, Daniel Vorcaro, tendo pago por influência questionável em veículos nacionais, não encontramos integrantes da nossa elite econômica que acreditem e invistam no jornalismo como um farol ético.
Carla Jimenez é mestranda do PPGCOM ECA-USP. Foi diretora e editora-chefe do El País Brasil entre 2013 e 2021.