Documented se prepara para Trump. Shutterstock

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Documented se prepara para Trump

Após anos de envolvimento com comunidades de imigrantes em Nova York, o site expande a colaboração com redações de todo o país

23 outubro 2026

Documented se prepara para Trump. Shutterstock
Documented se prepara para Trump. Shutterstock

Quando Donald Trump foi reeleito, a equipe do Documented não ficou surpresa. O site, voltado a comunidades de imigrantes de baixa renda em Nova York, cobre os maiores grupos de imigrantes da cidade – falantes de espanhol, chineses e caribenhos –, publicando tanto em seu site quanto nas redes sociais. No WhatsApp, publica em espanhol; no WeChat, em chinês; e no NextDoor, em crioulo haitiano, alcançando milhares de pessoas. Para ouvir esses imigrantes, seus repórteres organizam encontros, vão a eventos nas comunidades e fazem muitas sondagens.

No ano passado, por exemplo, uma pesquisa do Documented revelou que mais de 60% dos leitores chineses estavam preocupados com a segurança, incomodados com o volume de pedidos de asilo e insatisfeitos com o Partido Democrata. Rommel Ojeda, que cobre a comunidade latina, revelou que muita gente estabelecida há tempos ali achava que recém-chegados pela fronteira sul do país estavam contribuindo para o aumento da criminalidade, embora dados da polícia indicassem o contrário (“Os ilegais estão dando problema para a
cidade”, disse uma fonte). “Na maioria das redações, o jornalista traz a pauta. No nosso caso, é a comunidade”, contou Ethar El-Katatney, editora-chefe do Documented. “O que fazer quando a comunidade
pede conteúdos ou expressa preocupações que nos colocam em uma situação incômoda? Comunidades
de imigrantes são tão suscetíveis quanto qualquer outra, no sentido de querer reafirmar sua visão de mundo. Como se contrapor a isso e, ao mesmo tempo, atender a comunidade? São esses os desafios que estamos enfrentando.”

Durante o ano passado, o Documented acompanhou a divisão das comunidades de imigrantes e o crescimento do apoio a Trump. Agora, seus jornalistas estão examinando o impacto que o novo governo terá
no público que cobrem – e se preparando para ampliar sua atuação.

Em dezembro, o Documented recebeu uma verba de US$ 2 milhões da Knight Foundation para ser utilizada ao longo dos próximos três anos para ajudar meios de comunicação de todo o país a adaptar sua cobertura para servir o público imigrante agora no segundo mandato de Trump.

O Documented vem se aprimorando há anos, antes mesmo de ter sido oficialmente criado. Seus dois fundadores – Mazin Sidahmed, que iniciou a trajetória profissional no Daily Star, em Beirute, e Max Siegelbaum, que teve uma estreia decisiva no Cairo, trabalhando para a Vice e a Foreign Policy – cobriram o deslocamento de refugiados sírios na esteira da Primavera Árabe. Sidahmed lembra que entrevistava pessoas nos campos de refugiados e voltava em seguida ao trabalho para escrever “um texto em uma língua que eles não entendiam e com o qual jamais teriam maior envolvimento”, recorda. “Essa relação sempre pareceu muito extrativista.” Sidahmed só foi conhecer Siegelbaum depois, em Nova York. Em comum, os dois tinham a sensação de estar falando para o público errado. “Queríamos que os indivíduos no centro da reportagem também fossem os que a lessem”, disse. Quando Trump assumiu o primeiro mandato e começou a reformular o sistema de imigração dos Estados Unidos, veículos americanos cobriam as políticas disparadas por Washington. Mas, com a imprensa local definhando, a dupla percebeu que muitas das histórias sobre a experiência de imigrantes estavam deixando de ser contadas.

No auge da crise da separação de famílias na fronteira, os dois decidiram agir. Em 2018, lançaram o Documented do próprio apartamento de Siegelbaum. Era uma operação enxuta, com fins lucrativos, sustentada por membros e dedicada a fazer jornalismo para comunidades de imigrantes de Nova York. Mas os doislogo perceberam que modelo e missão não estavam alinhados. “Para ter receita em um modelo pago,
para dar lucro, é preciso buscar um público de nicho, com poder aquisitivo”, disse Sidahmed. Em poucos meses, mudaram para o modelo sem fins lucrativos, uma guinada difícil. Segundo Sidahmed, doadores podem ser inconstantes. “Não é previsível como o modelo de membros”, disse. “E depende muito de quem você conhece.” A dupla descobriu, no entanto, que ligar do nada para a sede de uma fundação pode dar bons resultados: em 2019, a Brooklyn Org (antigamente conhecida como Brooklyn Community Foundation) incluiu o Documented em um programa de aceleração, garantindo um espaço de trabalho grátis durante 18 meses. Na esteira, vieram verbas da Ford Foundatione da Borealis Philanthropy.

Hoje, o Documented tem 17 funcionários em tempo integral e uma equipe de freelancers instalada em um edifício na ponta sul de Manhattan, em um espaço dividido com o The City. O site tem quatro versões – em inglês, espanhol, chinês e crioulo haitiano –, com matérias específicas para cada um desses públicos, a maioria traduzida pelos próprios autores. Há também verticais dedicadas a moradia e usurpação de salários; este último inclui um projeto de visualização de dados que mostra valores devidos a trabalhado res em todo o estado; atualmente, está em inglês, mas há planos para tradução. Também há textos voltados para orientar sobre autorizações de trabalho de requerentes de asilo e sobre a situação de inquilinos chineses presos no tribunal de moradia da cidade sem acesso a tradução. Isso tudo divide espaço com guias sobre recursos disponíveis para imigrantes em Nova York, incluindo programas extracurriculares e assistência alimentar. Uma newsletter, Early Arrival, busca sensibilizar autoridades com a cobertura sobre temas que preocupam imigrantes no plano nacional, tem 50 mil assinantes e uma taxa de abertura de 35%.

“De modo geral, a meta é mostrar, pelo exemplo, como o jornalismo sobre imigração pode ser feito de
forma diferente, colocando o imigrante no centro, no papel de protagonista da história”, disse Madeline Faber, diretora de comunidades. Segundo El-Katatney, isso significa não só ouvir, mas “ouvir ativamente”, seja nas redes sociais, seja com a presença em um evento comunitário para arrecadação de brinquedos, por exemplo.

Esse modelo se inspira em um projeto criado pela ONG de jornalismo Internews: o chamado Listening Post Collective, focado na construção de uma relação de igualdade entre a comunidade e o jornalismo local, mapeando as necessidades da população e fornecendo ferramentas, recursos e redes de apoio. O coletivo, que produziu um guia chamado Civic Media Playbook, frisa a importância de integrar o jornalismo a ecossistemas existentes de informação.

No caso do Documented, isso significou realizar mais de mil entrevistas com indivíduos das comunidades chinesa e caribenha para nortear a cobertura. A ideia não é acelerar o metabolismo do noticiário – o tempo de repórteres é dividido entre redigir matérias e, outros dias, promover fóruns, elaborar guias ou interagir em chats on-line –, mas o processo é generativo (o Documented é parceiro do Listening Post Collective em uma iniciativa para dar apoio a veículos com cobertura voltada a imigrantes).

“Para jornalistas, é uma mudança radical de mentalidade”, disse Sidahmed. Quando a escala do projeto for nacional, não haverá um currículo fixo ou uma ferramenta universal que sirva a todos. A orientação a jornalistas será deixarem que as comunidades pautem a cobertura e estarem preparados para receber feedback pessoalmente. No final, o Documented pretende assessorar 20 redações voltadas a imigrantes em todo o país – incluindo sites independentes, emissoras de rádio, semanários alternativos e outros veículos locais –, ajudando a reformular processos editoriais para o diálogo direto com esses grupos de imigrantes. Os recursos também serão direcionados às redações e para pagar um integrante da equipe do Documented por todo o país para orientar colegas. “Nossa esperança é encontrar gente – gente jovem, jornalistas não brancos que queiram chegar a suas próprias famílias – que já tenha essa visão, mas que nunca tivera a possibilidade ou os recursos para fazer algo parecido”, disse Sidahmed.

Com a volta de Trump à Casa Branca, o Documented já prevê o impacto. “Vai ser um ataque ao público que servimos”, disse Sidahmed. A equipe está em contato próximo, por exemplo, com gente que talvez deixe de comparecer a consultas médicas por medo de ver sua informação vazar e acabar sendo deportada. “Se conseguirmos estabelecer com clareza qualquer informação que ajude as pessoas a viver melhor sua vida, já vejo como um sucesso”, disse Sidahmed. ■

Lauren Watson é fellow Delacorte na CJR.

Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.

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