
A mais recente edição do atlas da notícia revelou uma expansão da presença do jornalismo local no território brasileiro. Os pesquisadores do atlas identificaram atividade jornalística em mais 256 municípios e os retiraram da incômoda lista dos desertos de notícias, lugares onde não há nenhuma iniciativa jornalística investigando o poder público, prestando serviços à comunidade e reportando sobre o que acontece localmente.
Pela primeira vez desde 2017, quando o censo do Projor começou a ser realizado, o número de municípios que contam com ao menos um veículo jornalístico local ultrapassou o de desertos. Mas, apesar da redução de 8,6% em relação ao censo anterior, ainda restam 2.712 municípios sem atividade jornalística local detectada e neles vivem cerca de 26,7 milhões de brasileiros.
Ocupar os desertos de notícias, no entanto, não é o único desafio do jornalismo local no Brasil O cenário mapeado por duas pesquisas recentes feitas pelo Projor, uma sobre os impactos da pandemia nas organizações jornalísticas e outra sobre o jornalismo nos quase desertos municípios mapeados pelo Atlas da Notícia e que dispõem somente de uma ou duas organizações noticiosas, mostra um quadro mais complexo e desafiador.
É possível resumir esse quadro em dois grandes desafios que se impõem na caminhada dos veículos jornalísticos brasileiros em direção ao futuro: a sustentabilidade e a confiança do público.
Ambos os estudos do Projor revelam uma dependência muito grande da publicidade, fonte que muitas vezes é a única origem de receita donveículo. Nos municípios quase desertos de notícias, 64% das organizações têm na publicidade mais de 80% da sua receita. Durante a pandemia essa dependência se mostrou crítica, já que a crise sanitária e a econômica que a seguiu impactaram drasticamente as receitas publicitárias e abalaram a sustentabilidade dos veículos.
O fechamento do comércio local e a fuga de anunciantes para plataformas digitais agravaram a situação. A dependência da publicidade é uma realidade que vai de encontro ao que sugere o estudo Ponto de Inflexão, da SembraMedia, publicado em 2022, que enfatiza a importância da diversificação de receitas para a sustentabilidade das organizações de mídia digital, foco da pesquisa.
O estudo coloca entre duas e seis o número ideal de fontes de financiamento, o que permitiria às organizações equilibrarem suas receitas e reduzir a dependência de uma única fonte. A diversificação, no entanto, não é uma tarefa fácil. No jornalismo local no Brasil, a predominância de pequenas equipes, com até cinco colaboradores, aumenta a pressão sobre esses profissionais e acaba exigindo deles o domínio de múltiplas funções, desde a produção de conteúdo em diferentes formatos até a gestão financeira e o desenvolvimento de novas fontes de financiamento.
Essas novas fontes precisam ser exploradas, testadas, e isso exige trabalho, paciência e planejamento da
organização. E dependem, na maioria das vezes, da capacidade de esses veículos se mostrarem relevantes para as suas audiências.
Organizações mais estruturadas e que desfrutam da confiança de suas comunidades de leitores podem explorar modelos de financiamento pela audiência, como assinaturas, financiamento coletivo ou membresias. Os novos modelos de receita podem também estar na órbita do veículo sem que ele necessariamente os perceba, é o caso da prestação de serviços de consultoria para aqueles veículos de nicho que têm conhecimento, experiência e respeitabilidade em um ou mais temas da cobertura.
Outra fonte de financiamento que começa a ser mais explorada no Brasil é a das doações e grants de instituições nacionais e do exterior. Na Associação de Jornalismo Digital (Ajor), entidade que congrega 152
organizações jornalísticas digitais, cerca de 40% das associadas são organizações sem fins lucrativos. A redução da burocracia e do custo envolvido para criar organizações desse tipo poderia facilitar
o surgimento de novos empreendimentos jornalísticos sem fins lucrativos que poderiam ajudar inclusive a florestar os atuais desertos de notícias.
Nos quase desertos, o estudo do Projor encontrou um cenário ainda mais preocupante. Apenas 26% dos
veículos dispõem de ao menos um profissional dedicado à área comercial, enquanto em 34% das organizações a comercialização fica a cargo do próprio proprietário. Em 7% dos casos, a equipe editorial assume a responsabilidade também da venda de anúncios, o que estabelece um conflito de interesses que leva necessariamente ao segundo desafio, o da confiança do público A credibilidade é um valor que, uma vez percebido pela audiência, ajuda a pavimentar o caminho rumo à sustentabilidade.
O Projor vem trabalhando desde 2023 em um projeto que acrescenta uma camada de novos dados à base
do Atlas da Notícia. Essas informações irão definir se um site de notícias tem ou não conformidade com
o Programa de Indicadores de Compromissos com o Público, um conjunto de 11 indicadores que definem
o nível de comprometimento do veículo com a sua audiência.
A adesão dos sites ao programa exigirá a adoção de melhores práticas de transparência, tais como a
publicação clara de princípios editoriais, políticas de correção de erros e identificação de autoria e da propriedade do veículo, e firmará um contrato com seus leitores.
Os principais benefícios diretos para os sites de notícias são a construção de uma relação de confiança,
engajamento e fidelização da audiência. Mas a adoção dessas práticas pode também distinguir a organização de modo que os compromissos sejam vistos como atributo na destinação de recursos de organismos internacionais ou de políticas públicas, de fundos de apoio ao jornalismo ou até mesmo de anunciantes. Não
há dúvidas sobre os benefícios para o fortalecimento do jornalismo local e para o combate à desinformação.
O novo conjunto de dados que está sendo incorporado ao Atlas da Notícia com o programa de indicadores
vai permitir a ampliação de estudos sobre a realidade do jornalismo local brasileiro. Ainda neste ano, estarão
disponíveis também os dados de um estudo com 164 organizações jornalísticas analisadas pela seção brasileira do Projeto Oasis, coordenado aqui pela Ajor, e em 2025 serão divulgados os dados da sétima edição do censo do Atlas da Notícia.
O que já se sabe há algum tempo é que os dois desafios, o da sustentabilidade e o da conquista da confiança,
são indissociáveis e têm peso semelhante para o jornalismo local. A falta de sustentabilidade gera dependência, sobretudo do poder local, o que fere os princípios éticos e editoriais e a confiança. A falta de credibilidade enfraquece a capacidade de criar e manter novos modelos de financiamento. ■
Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024