Presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Shutterstock

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Como o jornalismo deve lidar com os políticos populistas?

O populismo tende a simplificar questões complexas, apelar para emoções e apresentar soluções aparentemente simples para problemas sociais e econômicos

25 outubro 2026

Presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Shutterstock
Presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Shutterstock

EM ENTREVISTA LOGO APÓS OS VIOLENTOS debates da campanha de São Paulo, Juan Senor, da consultoria internacional Innovation e do Instituto Reuters (Universidade de Oxford), afirma que o principal desafio do jornalismo hoje é lidar com o populismo. E ele não está se saindo bem, diz.

Logo após os violentos debates na campanha eleitoral paulistana, que incluíram cadeiradas e murros, propus ao consultor Juan Senor que refletisse sobre como lidar com candidatos populistas e antidemocráticos. Devemos deixá-los fora dos debates jornalísticos? Devemos deixar de cobri-los como se fossem políticos normais? Senor é otimista: diz que o populismo em todo o planeta está se dando mal diante do jornalismo crítico e propõe que ele adote procedimentos já testados em países como Itália, Estados Unidos e Inglaterra.

Desafios do populismo
Senor argumenta que o populismo prospera em meio a simplificações e meias verdades que são facilmente amplificadas pelos meios de comunicação. Para combater isso, ele sugere que os jornalistas foquem em reportar as ações concretas dos líderes populistas, em vez de apenas replicar suas declarações polêmicas. Ele cita o exemplo de como a imprensa italiana lidou com Silvio Berlusconi. Ao reduzir a cobertura de suas declarações extravagantes e focar em suas ações, sua influência diminuiu.

Populismo como sensacionalismo
Ele também aborda como o jornalismo pode evitar cair no sensacionalismo ao lidar com políticos populistas. Isso significa manter a sobriedade e o compromisso com a verificação dos fatos, sem sensacionalizar as controvérsias. Senor lembra que, embora as fake news tenham sido uma preocupação, o advento dessas
narrativas reforçou a importância de um jornalismo baseado em fatos, destacando que Trump e Bolsonaro enfrentaram desafios em manter suas posições devido ao escrutínio jornalístico.

Redes sociais e jornalismo
Ainda que as redes sociais tenham tido seu impacto, Senor observa que a resposta rápida dos jornalistas em verificar fatos tem sido crucial para combater “falsificações superficiais”. Ele acredita que, a longo prazo, as pessoas estão redescobrindo o valor do jornalismo confiável como fonte de informações.

A questão do debate
Quanto à questão de incluir populistas em debates, Senor acredita que todos os candidatos devem ser convidados, desde que sejam reconhecidos oficialmente. A inclusão deles nos debates permite que suas
posições sejam discutidas e desafiadas, fortalecendo o processo democrático.

Conclusão
Senor conclui que, apesar dos desafios, o jornalismo continua a desempenhar um papel vital na sociedade. O compromisso com a verificação dos fatos e a narrativa precisa são ferramentas essenciais não apenas para informar, mas também para garantir a qualidade da democracia em todo o mundo. Mesmo em face das dificuldades impostas por populistas e pela desinformação nas redes, o jornalismo permanece uma profissão crítica e resiliente.


Como lidar com
populistas: lições do
jornalismo italiano
sobre Berlusconi

■ 1. Foque nas ações, não nas palavras: relate o que os populistas fazem, não apenas o que dizem. Isso impede que suas declarações se tornem o centro das atenções sem o devido contexto.
■ 2. Não amplifique mensagens sem verificação: evite ser uma câmara de eco de declarações populistas.
Assegure-se de investigar e verificar os fatos rapidamente antes de publicá-los.
■ 3. Concentre-se em fatos e sobriedade: traga sobriedade à cobertura, comprometendose com o jornalismo factual e neutralizando narrativas sensacionalistas.


O que é populismo?

O populismo é um fenômeno político complexo e multifacetado. Segundo o renomado Dicionário de Política (Ed. FGV), de Norberto Bobbio, o populismo é “uma fórmula política cuja fonte principal de inspiração e termo constante de referência é o ‘povo’, considerado como agregado social homogêneo e como exclusivo depositário de valores positivos, específicos e permanentes”.
O populismo não está restrito a uma ideologia específica, podendo manifestar-se tanto à direita quanto à esquerda do espectro político:

  • Populismo de direita: exemplificado por líderes como Silvio Berlusconi na Itália, Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil. Geralmente caracteriza-se por discursos nacionalistas, anti-imigração e de “lei e ordem”.
  • Populismo de esquerda: representado por figuras como Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela. Frequentemente adota retóricas antielitistas, de justiça social e contra o “imperialismo”.
  • Em ambos os casos, o populismo tende a simplificar questões complexas, apelar para emoções e apresentar soluções aparentemente simples para problemas sociais e econômicos profundos.

Estratégias da Reuters para enfrentar o populismo no jornalismo

  1. Verificação de fatos ao vivo: implemente a checagem de fatos em tempo real, principalmente durante debates e declarações públicas, para desmascarar rapidamente informações falsas.
  2. Educação midiática: promova a alfabetização midiática, ensinando aos leitores como funcionam os
    algoritmos das mídias sociais e a importância de pensamento crítico em relação ao consumo de notícias.
  3. Relatar impactos reais: quando um populista faz reivindicações, investigue as comunidades e fatos reais por trás das alegações para revelara verdade.
  4. Contornar o sensacionalismo: afastese da cobertura que busca apenas choque e emoção; foque em reportagens analíticas e baseadas em dados.

Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024

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