“As coisas não acontecem de um dia para o outro, mas acho que em cinco, dez anos, a Síria vai estar muito próxima do que hoje é a Arábia Saudita, o Irã. Acho que as mulheres vão perder direitos. Foto: Shutterstock.

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“A cobertura de guerra hoje é capenga”, diz Klester Cavalcanti,que viveu dias infernais na Síria

Repórter brasileiro, preso pelo regime de Bashar al-Assad ao cobrir a guerra civil na Síria, fala sobre a nova edição de seu livro em entrevista a Leão Serva, ex-correspondente na Bósnia

01 novembro 2026

“As coisas não acontecem de um dia para o outro, mas acho que em cinco, dez anos, a Síria vai estar muito próxima do que hoje é a Arábia Saudita, o Irã. Acho que as mulheres vão perder direitos. Foto: Shutterstock.
“As coisas não acontecem de um dia para o outro, mas acho que em cinco, dez anos, a Síria vai estar muito próxima do que hoje é a Arábia Saudita, o Irã. Acho que as mulheres vão perder direitos. Foto: Shutterstock.

O jornalista Klester Cavalcanti lançou em janeiro de 2025 uma nova edição atualizada de seu livro Dias de Inferno na Síria, no qual narra o início da guerra civil no país, em 2011, e as agruras por que passou ao ser detido pelo regime do ditador Bashar al-Assad pouco depois de chegar ao país. Na nova edição, produzida após a queda do ditador Bashar al-Assad, ele inclui um perfil do novo governante, oriundo das fileiras da militância fundamentalista religiosa. Autor de vários livros-reportagem, como O Nome da Morte, adaptado para o cinema, Klester relembra as aventuras e comenta a cobertura da imprensa atual sobre os conflitos no Oriente Médio nesta entrevista a Leão Serva, professor da ESPM e ex-correspondente de guerra. A resenha da nova edição do livro é da jornalista Paula Saviolli, ex-aluna da ESPM e coautora de Depois do Front (2016), livro pioneiro no Brasil sobre o estresse pós-traumático entre jornalistas que cobrem conflitos.

Leão Serva– Klester, como foi a recepção à nova edição de seu livro?
Klester Cavalcanti
– Lançamos faz um mês e meio, ainda não tem números de venda. Mas foi bastante divulgado, muita gente fez matéria, dei muitas entrevistas. Porque, com a mudança no governo da Síria, o assunto está muito em evidência.

LS – Foi coincidência?
KC
– Eu fiz essa edição nova por isso. Em dezembro, quando caiu o Bashar al-Assad, tive a ideia de fazer uma edição atualizada do livro, já incluindo a queda dele e quem parecia estar prestes a assumir. Quando escrevi o texto, ainda não era certo quem ia assumir, mas já era provável que fosse o Abu Mohammed al-Jolani. Então eu já escrevi isso também, dei um breve perfil dele, dizendo quem é, comentando que foi da Al Qaeda e tudo mais. Porque eu não queria escrever um texto anexo ou um textinho a mais, eu queria inserir na história, porque no meu texto eu gosto muito de colocar as informações de um jeito que entre na história. Eu acho que ficou legal.

LS – Você distribuiu as novidades ao longo de todo o texto?
KC
– Eu coloquei tudo isso no último capítulo. Agora, no meio da história, depois da minha libertação, já em Damasco, perto do final do livro, fiz um apanhado geral sobre a situação da Síria: o que estava acontecendo, o que poderia acontecer. Com a queda do Bashar, a ascensão desse grupo rebelde e a confirmação de quem era mais provável que assumisse, tudo de fato aconteceu.

LS – E você, pessoalmente, acha que ele se transformará em um estadista ou ele vai ser sempre um cara da Al Qaeda?
KC
– Não acontece isso. A história mostra. Nunca teve um líder revolucionário com ideias militares, violentas, que ao assumir mudou. Fidel Castro é prova disso, ficou 50 anos no poder, nunca deu ao povo o direito de votar, de escolher quem queria. É muito legal quando alguém consegue tirar o ditador, mas nunca muda. Stalin foi isso, Fidel foi isso, esse al-Jolani é a mesma coisa, não vai mudar. O discurso dele quando o Bashar caiu, fugiu da Síria, na mesquita de Damasco, ele disse que a queda do Bashar era uma vitória para a “nação islâmica”… Você conhece Damasco?

LS – Não, tenho muita vontade de conhecer.
KC
– A cidade é linda, maravilhosa. Eu estive lá na mesquita, quando fui solto da prisão. É uma imagem impressionante. A mesquita tem um pátio gigantesco, maior que um campo de futebol. Só o pátio é enorme. Um piso lindo, sabe aquela coisa de porcelana, você não acha um grão de areia, é uma coisa maravilhosa. E diante daquele pátio lotado, o al-Jolani se referiu à Síria como a nação islâmica. Ele até então só usava roupas militares. Agora são roupas civis. Mas não vai mudar. Já há relatos de ataques às comunidades de cristãos. Estão dizimando os alauítas, que são a minoria étnica da qual o Bashar al-Assad faz parte. Vai ser uma desgraça. Só que agora tem a vantagem de que a maioria da população está do lado dele, que é a Síria. Noventa por cento de muçulmanos. E desses 90% tem uma maioria sunita e a minoria alauíta. O Bashar
al-Assad é dessa minoria alauíta. E o Abu Mohammed al-Jolani é sunita. Obviamente, a população sunita, por ser maioria, estava muito insatisfeita com o governo de um alauíta.
A família de Bashar al-Assad estava no poder há mais de 50 anos. O pai dele e ele. Agora, chega ao poder um sunita. Então a maioria da população vai enxergar com bons olhos a mudança. Só que é um cara mais truculento, mais agressivo, menos tolerante do que o Bashar. Eu acho muito pouco provável que tenha no Brasil alguém com mais razões do que eu para odiar o Bashar al-Assad.
Fui preso, torturado, ameaçado de morte pelo governo dele. Eu fui para a Síria com visto de imprensa. Não cometi nenhum crime, eu estava lá legalmente. E, mesmo assim, passei por tudo aquilo que passei. Então, acho difícil ter alguém aqui no Brasil com mais razões do que eu para odiá-lo. Mas tem um fato: o Bashar não era aquele ditador de alma sanguinária, truculento, como o Saddam Hussein, o Kadafi, não era. Ele é um cara que foi médico em Londres, como oftalmologista. Ele não ia ser presidente do país. Quem foi treinado a vida inteira para assumir o lugar do pai foi o irmão dele, mais novo, que morreu em um acidente de carro. Então o pai dele, que morreu pouco depois, o indicou para assumir o país. Mas ele não tinha essa vocação.

LS – Como você avalia a cobertura que se faz no Brasil e fora do Brasil sobre a Síria?
KC
– Você já esteve em guerras, já cobriu conflito, você sabe… hoje em dia eu acho que é ainda pior do que na
sua época e na minha, porque a cobertura parece ficar cada vez mais amadora. As pessoas têm a ideia equivocada de que dá para fazer cobertura a distância, e não dá, você só vai ver de verdade se estiver lá. Então, hoje, do Brasil não tem ninguém na Síria.
Assim, tudo que sai aqui é o que vem das agências de notícias, mas você não consegue nem confirmar, nem checar, só tem o que vem da agência A cobertura aqui está muito fraca, muito capenga, depende de agências de notícias. E eu tenho fontes lá. Tem gente que era do governo Bashar al-Assad; e gente que era do exército rebelde, chamado Exército Livre da Síria. Só que hoje esses caras, que eram os rebeldes, estão no governo.
Então, para mim, é ótimo, mas é um negócio muito louco.

LS – Klester, o filme Tempo de Guerra (Warfare) conta uma história de um grupo de elite do Exército americano que é cercado de militantes da Al Qaeda e vive uma batalha violentíssima dentro de uma casa. O diretor Ray Mendoza foi militar e participou dessa operação, e ele diz que fez o filme para ajudar a memória de um companheiro que não conseguia lembrar nada do que aconteceu.Como foi para você mexer na memória ao retrabalhar o livro? Trouxe sentimentos psicológicos fortes?
KC
– Eu sempre digo que minha cabeça ou é muito boa, ou é muito ruim, porque eu não fiquei com nenhum trauma. Eu traduzo muito a leveza, falo na boa, até dos episódios mais dramáticos, pesados, sofridos, eu lido muito bem com isso. Eu acho que o lado positivo da história, a parte humana, foi tão bacana, as relações humanas que eu fiz fora da prisão, dentro da prisão… Eu fiz amigos no presídio.

Klester Cavalcanti foi capturado,
preso ilegalmente e torturado
durante o início da guerra civil
na Síria, em 2011. Foto: Divulgação.

LS – Como isso aconteceu?
KC
– Eu acho que tudo isso me fez ter uma relação muito boa com essa história. Porque, claro, eu sofri muito, por tudo que passei, foi muito angustiante. Em vários momentos tive certeza de que ia morrer, foi muito pesado. Mas eu não sei se é o jeito que tenho, sinceramente, eu prefiro valorizar as coisas boas da vida. Acho que no meu coração ficaram mais coisas positivas do que negativas da minha história na Síria. Também tive uma realização profissional. Eu tinha muitos sonhos de cobrir uma guerra. E no meu coração, na minha mente, ela deveria ser no Oriente Médio. Na faculdade, quando eu via matérias de jornalismo de guerra, achava um sonho, histórias como o José Hamilton Ribeiro cobrindo Vietnã e quase morreu. Ainda garoto, antes de pensar em ser jornalista, eu via o Pedro ial cobrindo conflito, ele agachado, e estourou a bomba. Eu falava: “cara, isso é fantástico, quero estar nesse lugar”. Então, o fato de eu chegar à Síria foi a realização de um sonho…

LS – Eu tinha essa mesma relação, desde pequenininho tinha essa coisa como se tivesse sido mordido…
KC
– Eu li o seu livro de Sarajevo… Quando eu consegui entrar na Síria, foi aquele tormento muito complicado, mas cheguei, consegui chegar a Damasco. Só que em Damasco não tinha guerra, tinha de ir para Homs. Tenho um colega, jornalista, que foi para Damasco, na época da guerra, e falou que cobriu a guerra, mas ele não cobriu a guerra, porque em Damasco não tinha guerra. É como se houvesse uma guerra em Campinas, o jornalista sai de Nova York, de Londres, para cobrir a guerra e fica aqui em São Paulo. Não cobriu a guerra.
Então, eu queria ir para Homs, que era onde a guerra era mais pesada naquele momento. E todo mundo dizia que eu nem conseguiria chegar. Quando cheguei a Homs, já deu de cara uma alegria. Era ao mesmo tempo alegria e tristeza de ver bomba caindo, tiroteio, gente morta, aquela agonia toda, e tinha ao mesmo tempo aquela satisfação. “Cara, eu estou aqui, eu estou na guerra, eu estou vendo isso de verdade. Aqui eu estou vendo, ninguém está me contando, eu estou aqui, na guerra”, assim. Era muito louco a minha cabeça conseguir processar tudo, entendeu? Sim. Tem uma coisa muito, muito maluca, Leão. Você falou de filme, eu sou cinéfilo. Desde muito garoto, eu adoro cinema. E eu tenho um livro que foi adaptado para o cinema, que chama O Nome da Morte. Eu não sabia. É um livro que foi até lançado na Inglaterra, também, com o título The Name of the Death. É um livro que eu escrevi a história real de um cara, assassino de aluguel, que matou 492 pessoas catalogadas. Ele tinha um caderno onde anotava os crimes. Eu tive acesso a esse caderno.

LS – A razão desses que servem a Esquadrão da Morte, assim, por banditismo, era só…
KC
– Não, pistoleiro. Se pagou, ele vai e mata. Pistoleiro. E esse foi lançado, já em oito idiomas, em mais de 20 países.

LS – E a adaptação?
KC
– A adaptação é de um diretor brasileiro que mora em Londres, chamado Henrique Goldman. Ficou muito bom.

LS – Ele fez um filme muito interessante sobre os judeus no Pará – Marrocos, uma nova África (1990).
KC
– Ele também fez aquele filme sobre o Jean Charles, com o Selton Mello, sobre a morte do imigrante
brasileiro. Foi o Henrique que dirigiu esse filme chamado O Nome da Morte (2018), com o Marco Pigossi, André Mattos, Fabíula Nascimento, Matheus Nachtergale, um elenco de peso. Muito legal o filme. Enfim, eu tenho essa coisa com o cinema. Já vendi os direitos do livro sobre a Síria. E quando estava vivendo tudo aquilo na Síria, ao mesmo tempo eu conseguia pensar: “Cara, se eu sair daqui com vida, vou ter uma história muito fantástica para contar”. Eu tinha essa consciência de que estava vivendo algo surreal. Eu pensei: “Isso aqui é cinema, eu estou vivendo um filme”. Imagina, jornalista estrangeiro preso no Oriente Médio, no meio de uma guerra. E faz amigos num presídio, tem aquela relação. Cara, isso é cinema!

LS– Então eles não foram só colegas de cela. Mais do que boas histórias de cela, ficou uma amizade dessa relação.
KC
– Eu falo uma coisa com o coração. Esses três amigos que fiz, eu chamo de “irmãos de cárcere”. São três sujeitos, que se alguém me ligar hoje dizendo “Pegamos um deles, é você ou ele”, eu me entrego na boa, sério, por esses caras eu me entrego, porque, se não fossem eles, acho que eu teria ficado louco lá dentro, porque foram eles que me confortavam. Quando eu estava muito angustiado, não queria comer, eles diziam: “Se você não comer, você vai ficar doente aqui dentro. Você tem de comer isso aqui”. Quando eu estava muito triste, eles iam me confortar, me consolar, foram três caras assim… Esse anel que uso até hoje, eu ganhei de um deles lá. Sendo que um deles quase não falava nada em inglês. Um falava muito bem, era o Omar, esse virou irmão mesmo. Até nos falamos depois que ele foi solto; o Adnan falava uma coisinha ou outra e o Ali não falava nada em inglês. E é louco, porque ele não falava nada de inglês, eu não falava árabe, e às vezes nós ficávamos conversando. Ele entendia tudo, só pelo gesto. É engraçado.

Leão Serva viajou até Sarajevo
em 1992, para cobrir
a guerra civil que fragmentou
a antiga Iugoslávia. Foto: Ale Ruaro.

LS– Os três estão vivos, você os acompanha após a queda do Bashar?
KC
– Não, eu só sei do Omar. Como ele fala inglês, quando eu saí da prisão, a gente trocou telefones. Eu dei para ele o meu cartão, eu fui para a Síria pela revista IstoÉ. Eu dei para o Omar o meu cartão, e tinha o meu telefone celular e o da redação da minha mesa. E ele me deu o telefone dele também. Só que eu saí, ele ficou lá, então não tinha como ligar para ele. E como os outros dois, o Ali não falava inglês, o Adnan falava muito pouco, não valia nem pegar o telefone deles. Depois de três ou quatro meses que voltei da Síria, o telefone da minha mesa tocou e atendi.
Era o Omar. Foi muito emocionante, muito emocionante. Que legal, nós vamos conversar, ligar uma vez a cada dois, três meses, tudo mais. Até que a guerra ficou mais intensa ainda, e chegou um momento em que eu ligava para ele, e ele não atendia, nem celular, nem casa. Agora, com essa edição nova do livro, eu mandei a mensagem no WhatsApp, pelo telefone que eu tenho dele. Que ele usava antes. Uma mulher me respondeu informando que o telefone não era dele, era dela. Falou até o seu nome e que não o conhecia. Espero que ele esteja bem em algum lugar.

LS – Voltando um pouco à questão política, a impressão que eu tenho é que a Síria é talvez um dos países mais diversos de povos: tem os sunitas, tem os alauítas, mais diversos assim por metro quadrado do mundo, talvez de mosaico, de gente e tal. É uma coisa que a imprensa parece incapaz de retratar isso. Você teve essa sensação de que a imprensa põe no liquidificador e homogeneíza a cobertura?
KC
– Sim, isso aí é por duas questões. Primeiro, por aquele ponto que comentei antes: a imprensa não envia jornalistas. Então fica difícil: a pessoa pensa, Oriente Médio é tudo árabe, tudo muçulmano, tudo igual. Então, até fisicamente falando, pessoas sempre pensam no árabe, que é uma pessoa igual a mim. Moreno, narigudo, tudo isso. Lá na Síria, até a questão da aparência das pessoas é muito diversa. Por exemplo, o Omar, esse meu irmão da prisão, é uma pessoa de pele muito clara, cabelo preto. Não tem aquele estereótipo do árabe magrelo, narigudo, moreno, de barba. As mulheres também. Você falou das etnias.
Tem muitos curdos, por exemplo, na Síria. Só que as pessoas não vão lá, não veem isso. Aí tem o preconceito de achar que o mundo árabe é tudo igual. A Síria é diferente do Paquistão, do Afeganistão. Lá, sim, no Afeganistão é tudo com a cara igual a minha, sim. Na Síria, é muito diferente, até porque a raiz étnica deles é a mesma de Israel, dos israelenses. Tem muito sírio que tem a cara do israelense europeu, entende? Só que como as pessoas não vão, não leem, então não sabem disso.

LS– Sobre o Bashar al-Assad, embora ditador, ele parecia ser um elemento de contenção de uma série de tensões étnicas, como o Saddam Hussein no Iraque, também. Você tem a sensação de que a imprensa internacional não percebe essa multiplicidade de lados da história?
KC
– Quando você tem um homem como o Saddam Hussein, um ditador truculento, violento, quem não obedecer morre. De uma forma ou de outra, esse homem consegue comandar aquele povo, do jeito selvagem dele. Não é que esteja certo, se você tira esse homem, ninguém controla mais aquele lugar. Agora, a grande diferença entre o Iraque e a Síria é que, quando tiraram o Saddam, não tinha quem assumisse, uma loucura.
Os Estados Unidos queriam mandar, queriam decidir… Na Síria, o Bashar caiu e, três meses depois, já tem um presidente e a maioria da população está do lado dele.

LS– Por enquanto, pelo menos está…
KC
– O Bashar, até talvez pela sua formação social, cultural, valorizava a diversidade religiosa, o direito das
mulheres. Inclusive isso era uma das razões da oposição a ele, porque a oposição mais radical, muçulmanos e mais conservadores, não aceita que você tenha liberdade religiosa, não aceita que a mulher possa usar a roupa que quiser. Eu vi em Damasco mulheres de minissaia, de blusinha de alça, mulheres dirigindo carro, que no mundo muçulmano às vezes não pode. Tem mulheres na política.
Tudo isso eu vi em Damasco. Igrejas cristãs perto de mesquitas, como vi também em Beirute, e isso não era motivo de confusão. Acredito que, falando numa linha de tempo de história, as coisas não acontecem de um dia para o outro, mas acho que em cinco, dez anos, a Síria vai estar muito próxima do que hoje é a Arábia Saudita, o Irã. Acho que as mulheres vão perder direitos, que vai virar um Estado muçulmano.

LS– Você tem vontade cobrir, de voltar à Síria?
KC
– Tenho muita vontade, vou voltar, sim. Tanto que tenho muita vontade de cobrir conflitos em outros lugares. Quando começou esse atual conflito na Palestina, tentei ir para lá, porque tenho um projeto muito antigo, muito anterior a esse atual conflito, de morar em Gaza. Esse projeto eu tenho já desde 2010.
Quero morar em Gaza durante um tempo, no mínimo três meses, para contar como é viver lá. Não só o conflito, as guerras, mas como é a vida naquele lugar. Como ninguém fala sobre isso. Como é que é a vida em Gaza? Pessoas se casando, indo ao cinema, passeando, surfando, se divertindo. E, claro, também a guerra. Eu tenho há muito tempo esse projeto. Em 2021, em Brasília, fui à embaixada da Palestina, tive uma reunião com o embaixador e falei para ele desse projeto. Dei a ele o livro da Síria, falei para ele da ideia de morar em Gaza por um tempo, e ele disse que o governo tinha interesse em me ajudar a ficar lá. Falei: “Ótimo. Vamos articular isso”. Mas, quando começou este conflito, há um ano e meio, eu perguntei a ele:“Será que a gente consegue agilizara minha ida para Gaza?”. Eu queria ir agora. Então ele disse: “Agora é impossível”. Sobre a Síria, eu tenho muita vontade de fazer a trajetória da guerra, de voltar a Homs como turista e também a trabalho. Tenho muita vontade de rever o presídio onde fiquei preso, ir lá na cela onde fiquei, quero ver tudo, sem ser naquela angústia toda. Porque tem uma coisa louca: era tão angustiante tudo que eu estava vivendo ali, que meu cérebro não conseguiu absorver tudo. Tem momentos que eu não consigo lembrar bem o que eu vi.
Porque mesmo quando eu fui solto da prisão, eu não consegui me alegrar, porque ninguém me disse por que eu estava sendo solto. Eu achava que ia ser executado, porque eu fui solto um dia depois do meu visto de imprensa expirar e da minha passagem vencer. Eu pensei: “Eles me mantiveram preso até chegar o momento em que eu não tenho mais visto, a partir de hoje eu estou no país ilegalmente. Então, agora eles podem me matar e dizer: “Matamos porque pegamos uma pessoa sem visto, estava ilegal no país, matamos!”. Então saí da prisão angustiado, não estava feliz. Me levaram para Damasco. Só lá é que me explicaram tudo. Fiquei aliviado quando soube que o governo do Brasil intercedeu junto ao governo sírio. Fiquei mais tranquilo, mas ainda assim, mesmo em Damasco, eu só conseguia sair do hotel com um funcionário do governo da Síria me acompanhando. Essa pessoa virou também meu amigo, falo sobre ele no livro, o Fadi Maluf. Eu sempre achava que qualquer um era o homem que vinha me matar. Só fiquei realmente tranquilo quando veio um cônsul do Brasil na Síria me buscar no hotel onde estava, me colocou dentro de um carro da embaixada brasileira e me levou de Damasco até Beirute. Eu fiz uma viagem internacional, dentro de um carro da embaixada brasileira, para poder sair da Síria em segurança. Cara, é muito filme isso!

LS – Você, ao sair da prisão, dormia bem?
KC
– Não tinha nem saído, dentro da prisão, na penitenciária, e já dormia bem… Eu fui preso numa tarde e a minha primeira noite, como detento, foi numa delegacia improvisada lá em Homs. Eu fiquei algemado num sofá… Você viu o filme Ainda estou aqui?

LS – Sim.
KC
– Sabe aquela cena que ela está presa, sozinha, numa sala, e ouve torturas nas outras salas? Então, eu passei por isso a primeira noite. Eu estava numa sala, algemado ao sofá, um cara de olho em mim e eu ouvia, nas outras salas, gritaria e porrada. E eu pensei: “Eu vou morrer”. Essa noite eu não dormi, passei a noite em claro. Na manhã seguinte, disseram que eu seria solto, e me levaram para o presídio. Na primeira
noite no presídio, eu não tinha dormido na noite anterior e dormi, acho, quatro horas. Eu conto isso no livro.
Na segunda noite, dormi um pouco mais, já dormi cinco, seis horas. A terceira noite eu dormi oito horas.
Eu acordei indignado, e pensei: “Eu não posso dormir bem, não posso me acostumar a fazer isso aqui, não posso aceitar isso”. Só que o ser humano se adapta a tudo.

LS– Mas essa foi uma das formas que você teve para conseguir ficar zen numa condição tão adversa.
KC
– Eu estava numa cela pequena, acho que tinha uns 30 metros quadrados, e eram mais de 20 homens lá dentro. Então, na cela, eu dormia no chão, comia no chão. Você deve saber, no mundo árabe os homens fumam muito, o tempo todo. Em nossa cela, sem exagero, tinha hora do dia que ficava uma nuvem de nicotina. Você via a nuvenzinha, a poeira de nicotina. E eu não fumo.
Quando fui solto, me levaram para um hotel, um quarto grande, uma cama enorme, um banheiro maravilhoso, boa banheira, frigobar abastecido. A água na prisão tinha um gosto péssimo. Eu tomo muita água, mas no presídio eu segurava a sede ao máximo, só em última instância, porque era muito ruim. O chefe da prisão me proibiu de tomar banho, por pura maldade. No hotel tinha o frigobar abastecido, cheio de água, refrigerante, snacks, chocolate, salgadinho. Assim que cheguei no quarto, a primeira coisa que fiz foi tirar minha roupa, eu tinha passado seis dias com a mesma roupa… Tirei a roupa e fui tomar um banho, estava delicioso, sabonete, xampu, aquele chuveirão…
Quando eu saí do banheiro, o quarto inteiro cheirava cigarro da minha roupa. Eu peguei a roupa, coloquei no saco plástico e fechei. Pedi uma comida e pensei: ontem estava na prisão e agora, poucas horas depois de ser solto, estava em uma situação com todo conforto, comida boa, um refrigerador cheio de água, chocolate, salgadinho, a cama gigante só para mim… Enquanto isso, meus amigos na prisão em Homs. Mais tarde fui com um amigo da embaixada a um restaurante, e veio um filé no ponto perfeito, com legumes no vapor no ponto certo. Eu pensei: essa vida é louca. ■

Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.

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