As novas políticas adotadas pelo X, somadas à onda de discursos inflamados na rede, acabaram “ampliando os limites daquilo que as redes sociais consideram permitido”. Foto: Shutterstock.

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Como a política destruiu a moderação de conteúdo

Primeiro foi Elon Musk. Depois, a Câmara dos Estados Unidos

23 outubro 2026

As novas políticas adotadas pelo X, somadas à onda de discursos inflamados na rede, acabaram “ampliando os limites daquilo que
as redes sociais consideram permitido”. Foto: Shutterstock.
As novas políticas adotadas pelo X, somadas à onda de discursos inflamados na rede, acabaram “ampliando os limites daquilo que as redes sociais consideram permitido”. Foto: Shutterstock.

Em 2017, pouco depois de donald trump ser eleito presidente dos Estados Unidos, o centro de estudos Alliance for Securing Democracy (parte de uma organização com sedes em Washington e em Bruxelas, o
German Marshall Fund of the United States) lançou um sistema batizado de Hamilton 68. O objetivo era analisar o conteúdo de redes para identificar temas em mensagens disseminadas por agentes do governo
russo no Twitter, em geral usando perfis que pareciam ser de gente comum pró-Kremlin (o nome do sistema veio de um ensaio da obra O Federalista, no qual Alexander Hamilton alertava para o risco de influência indevida de potências estrangeiras na política americana).

“Se alguém analisasse cada perfil separadamente, daria para ter uma ideia do rumo que a narrativa ia tomando. Mas o contexto geral podia passar batido. Nossa ideia foi reunir toda essa informação em um único
lugar, traduzida para o inglês”, explicou Bret Schafer, um alto membro da equipe da Alliance for Securing Democracy.

A certa altura, o Hamilton 68 passou a incluir outras plataformas – Facebook, Instagram, Telegram – e também perfis mantidos pelos governos da China e do Irã. Na mesma época, a Meta adquiriu um programa próprio de monitoramento, o CrowdTangle. Isso permitiu que Schafer e a equipe analisassem melhor dados do Facebook e do Instagram. Em 2018, já ganhava força a tese de que a interferência estrangeira nas redes sociais era um problema sério. Nos Estados Unidos, o Comitê de Inteligência do Senado encomendou um estudo.

O informe resultante – cuja principal autora foi Renée DiResta, especialista em manipulação digital e hoje no Stanford Internet Observatory – mostrava como agentes russos se faziam passar por americanos para publicar conteúdos que incitavam a divisão da sociedade. Em todo o país, estudiosos da desinformação e de campanhas de influência começaram a detectar um padrão recorrente: governos estrangeiros espalhavam rumores e alimentavam a polarização para manipular o debate público nas redes; e a população americana caía como pato. “Na época da eleição de 2020, a impressão era que a sociedade civil estava se armando para a luta”, lembrou Schafer. “Acadêmicos, plataformas e setores do governo tentavam trabalhar juntos para entender melhor o que estava acontecendo no meio digital.”

Mas não durou muito. Elon Musk, um autodeclarado “absolutista da liberdade de expressão”, comprou o Twitter no fim de 2022 e anunciou que a partir dali iria cobrar pela interface de programação da rede, ou API – que, segundo Schafer, era a “melhor fonte de dados” do Hamilton (a um custo inicial de milhares de dólares ao mês, a API está fora do alcance da maioria das instituições acadêmicas e organizações sem fins lucrativos, incluindo a de Schafer). Musk, que há muito criticava a moderação de conteúdo do Twitter, declarou que sua intenção era criar uma espécie de “praça pública digital na qual uma diversidade de opiniões pudesse ser debatida de maneira saudável, sem recurso à violência”, indicando assim que faria menos para combater a disseminação de falsidades. Rebatizou o Twitter de X e desmantelou o departamento de Trust and Safety, responsável pela moderação do conteúdo e por investigar campanhas de manipulação estrangeiras. Também passou a divulgar os chamados Twitter Files: documentos e e-mails que, segundo Musk, eram prova de uma conspiração da liderança anterior da empresa com acadêmicos e o governo federal americano para censurar a direita.

Foi a deixa para políticos de direita. Revoltados com o que viam como um policiamento excessivo e tendencioso da liberdade de expressão nas redes, e movidos pela convicção inabalável de que Trump perdera a eleição de 2020 por fraude, passaram a alegar que gente como Schafer, DiResta e colegas eram parte de um programa de repressão do governo para calar os conservadores. Em janeiro, parlamentares republicanos na Câmara dos Estados Unidos criaram um subcomitê para investigar a “instrumentalização” do governo federal contra a direita. Uma das primeiras medidas foi enviar cartas a centros de estudo – incluindo os de Schafer e DiResta – exigindo registros de qualquer correspondência que as organizações tivessem com o governo federal ou com redes sociais sobre moderação de conteúdo. Na mesma época, uma ação movida pelos procuradores gerais da Louisiana e do Missouri chegava à Suprema Corte americana, alegando que o governo Biden exercera influência indevida sobre redes sociais ao pedir que tirassem de circulação inverdades ligadas à covid19 e ao negacionismo eleitoral. A ação alegava que isso seria uma forma de repressão da liberdade de expressão sancionada pelo Estado.

Com a comoção crescendo, Meta e YouTube reduziram iniciativas para rotular, monitorar e remover conteúdo potencialmente nocivo. O YouTube reverteu medidas de combate à desinformação eleitoral adotadas em resposta ao negacionismo das eleições de 2020; tanto Meta quanto YouTube readmitiram Trump em suas respectivas plataformas (apesar do desrespeito às normas no passado). “Avaliamos detidamente o risco de violência fora das redes, mas também consideramos a importância de garantir que os eleitores tenham acesso, em igualdade de condições, a manifestações dos principais candidatos durante a campanha eleitoral”, explicou o YouTube em um tuíte. A Meta soltou uma declaração anunciando que decidira não estender o
período de suspensão de dois anos recomendado por seu comitê de supervisão, alegando que o “risco diminuíra o suficiente”. De quebra, anunciou que desativaria o CrowdTangle; haveria um substituto, mas aberto apenas a quem a empresa aprovasse (a Meta diz ter feito uma parceria com o Inter- -university Consortium for Political and Social Research, da Universidade de Michigan, “para fornecer dados públicos das plataformas da empresa de forma responsável, resguardando a privacidade”). Tim Harper – ex- -gerente de políticas de conteúdo na Meta, hoje analista de regulamentação em uma entidade sem fins lucrativos chamada Center for Democracy and Technology (onde já trabalhei) – acredita que as novas políticas adotadas pelo X, somadas à onda de discursos inflamados na rede, acabaram “ampliando os limites daquilo que as redes sociais consideram permitido”.

Seja qual for a situação na Meta e no YouTube, conclui, executivos dessas duas empresas entendem que “o
Twitter provavelmente vai ser pior”. Agora, os pesquisadores estão enfrentando um colapso do sistema
em que confiavam. “Nossa capacidade de monitorar tendências ao longo do tempo, de entender o volume
de postagens, ficou muito reduzida”, disse Schafer. Sua expectativa é que, com o fim do CrowdTangle, o Hamilton precise ser desativado também. Durante anos, a maioria dos estudiosos da área e das chamadas equipes de “confiança e segurança” operou com o entendimento tácito de que fazia sentido governo, acadêmicos e empresas de tecnologia manterem contato. Um diálogo frequente sobre a moderação de conteúdo já ocorria desde 2015, quando postagens e vídeos ligados ao Estado Islâmico começaram a aparecer na internet. “O governo tinha certo conhecimento sobre quem administrava certos perfis, de que lugar, assim como as plataformas”, disse DiResta. “Ficou claro que era melhor manter esses canais de comunicação abertos.” A recente comoção política em torno dessa relação não só atrapalhou a pesquisa, como também desviou a atenção de uma discussão essencial: como equilibrar liberdade e regulação na internet. E, sobretudo, que tipo de moderação realmente ajuda a minimizar danos. Para Schafer, a polarização política levou muitos democratas a insistir reflexivamente que o governo deveria ter liberdade para se comunicar com redes sociais sobre ameaças. No entanto, ele pondera: “É legítimo discutir quais devem ser os limites dessa relação. Se invertermos os papéis, e outro governo estiver no poder, a reação provavelmente seria diferente”.

Iniciativas de combate à desinformação nas redes às vezes deram errado apenas para validar as alegações republicanas de parcialidade. Em um caso, por exemplo, três ex-executivos do Twitter admitiram à subcomissão do Parlamento americano que investigava um conluio entre governo e redes sociais que fora um erro da empresa bloquear temporariamente uma matéria do New York Post sobre o conteúdo do computador de Hunter Biden (embora tenham negado que a decisão fora orientada por membros do governo). Os executivos sustentaram que, à época, o Twitter julgou que a reportagem era parte de uma tentativa coordenada de influenciar a eleição presidencial.

O próprio sistema Hamilton já foi acusado de parcialidade. E-mails vazados no pacote do Twitter Files mostram que Yoel Roth, ex-diretor de Trust and Safety do Twitter, temia que a primeira versão do Hamilton 68 estivesse contribuindo para o “alvoroço sobre bots na mídia”. O problema, escreveu Roth, era que a ferramenta confundia atores bancados pela Rússia e americanos comuns de opinião conservadora: “Praticamente qualquer conclusão a partir dali levará conversas em círculos conservadores no Twitter com a acusação de serem russas”. Schafer me disse que via a reação de Roth como um “argumento falacioso”, fruto de uma distorção recorrente da mídia.

“Internamente, chegamos a ‘vinculado à Rússia’ para descrever a lista de perfis, um rótulo genérico impreciso”, afirmou. “Em relatos externos, os dados normalmente eram atribuídos a ‘bots e trolls russos’,
o que era claramente mais problemático.” No final, “não conseguimos superar essa percepção distorcida”. A versão atual do Hamilton monitora apenas contas comprovadamente operadas por governos. Quando falei com Roth, ele disse ainda acreditar na importância da moderação de conteúdo e que a comunicação entre empresas e governo pode ser legítima. “No caso de ameaças cibernéticas, um governo sempre terá muito mais informações e acesso do que o setor privado”, disse. “Isso não significa que o setor privado deva ser apenas um canal para que serviços de inteligência orientem a moderação de conteúdo. As plataformas devem aplicar o próprio critério e discernimento.” (Roth deixou o X em 2022, após a ascensão de Musk.) “O trabalho de Trust and Safety sempre envolve equilibrar diferentes danos e escolher, de acordo com a situação, o que seria mais prejudicial e, portanto, deveria ser abordado”, acrescentou.

“Às vezes, a existência permanente de conteúdo perigoso e traumatizante é pior do que a possibilidade de censura de discurso.” Hoje, pesquisadores têm menos acesso a informações necessárias para fazer esse tipo de análise e dizem que é mais difícil mapear campanhas de desinformação estrangeiras do que anos atrás. Há pouco, DiResta descobriu um perfil que, segundo a Meta, pertence ao governo do Irã. A Meta e outras redes sociais removeram a conta, mas ela continua ativa, inclusive no X. No passado, ela teria procurado o X para saber por que o perfil não tinha sido removido, mas esse canal de comunicação foi fechado.

Ainda não está claro se a conta – que publica principalmente teorias conspiratórias sobre vacinas e conteúdo pró- -MAGA – faz parte de uma rede oficial de propaganda. Schafer, por sua vez, está cada vez mais preocupado com a China, que parece ter intensificado campanhas de informação. Mas como o X é a plataforma preferida de diplomatas chineses interessados em influenciar o público internacional, seus colegas têm pouca informação com que trabalhar. “Isso deixa nosso analista para a China praticamente no escuro”, disse.

Nora Benavidez, da equipe jurídica da Free Press, um grupo de pesquisa voltado à mídia, publicou em dezembro um relatório intitulado “How Social-Media Rollbacks Endanger Democracy Ahead of the 2024 Elections”. Perguntei o que ela achava dos últimos acontecimentos. “O trabalho de pesquisadores para expor o que está acontecendo nas redes sociais foi simplesmente essencial para responsabilizar as plataformas”, disse. “No final, o que vemos é que a democracia é uma prioridade muito menor para essas empresas do que manter custos sob controle.” ■

Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.

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