
O recente desmonte do programa de checagem de fatos da Meta nos Estados Unidos gerou preocupações globais sobre o combate à desinformação. A empresa, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, anunciou o fim da iniciativa e alterou suas diretrizes de moderação. Segundo Mark Zuckerberg, CEO da Meta, a decisão busca reafirmar o compromisso com a liberdade de expressão, argumentando que os verificadores de fatos têm sido politicamente tendenciosos e minado a confiança do público.
No Brasil, onde o próximo ano será eleitoral, especialistas e jornalistas manifestam preocupação com os possíveis impactos da medida. “Há um enfraquecimento da checagem de fatos ao ser abandonada como ferramenta de combate à desinformação dentro das plataformas”, afirma Tai Nalon, diretora do Aos Fatos.
Ainda não está claro como essa mudança afetará a distribuição de conteúdo, mas a aposta da Meta agora é no modelo de “notas comunitárias”, em que os próprios usuários comentam e contextualizam publicações. Inspirada no X (antigo Twitter), a estratégia levanta dúvidas sobre sua eficácia, pois não há garantias de precisão nem mecanismos robustos para evitar manipulações.
“Uma abordagem que combinasse notas comunitárias com checagem profissional seria mais eficaz para empoderar o usuário. No entanto, há casos em que a atuação de profissionais é indispensável”, ressalta Nalon.
Além do desmonte da estrutura de verificação, outras mudanças nas plataformas digitais dificultam o trabalho de jornalistas e pesquisadores. “O fim do acesso a ferramentas de monitoramento, como o CrowdTangle da Meta, e o aumento dos custos de uso de APIs, como fez o X, criam obstáculos para checadores e pesquisadores que dependem desses meios para monitorar redes e combater a desinformação”, alerta Sérgio Lüdtke, coordenador do Projeto Comprova.
Lüdtke destaca que, ao restringirem o acesso ao jornalismo e à academia, as plataformas acabam favorecendo a disseminação de conteúdos enganosos por atores políticos. “Muitas vezes, esses conteúdos ainda são impulsionados pelos próprios algoritmos”, acrescenta.
O futuro da checagem no Brasil
A possibilidade de que a Meta estenda o encerramento do programa para outros países trouxe à tona o debate sobre a sustentabilidade financeira das iniciativas de checagem. Muitas delas dependem da remuneração oferecida pelas plataformas para realizar esse trabalho. Sem esse suporte, agências brasileiras buscam alternativas para reduzir a dependência das big techs.
Contudo, Nalon aponta que o problema é estrutural e afeta o jornalismo como um todo. “A sustentabilidade da checagem de fatos e do jornalismo não pode depender apenas de esforços individuais dos veículos para diversificar receitas. São necessários mecanismos de políticas públicas que incentivem fundos privados e públicos para financiar a atividade”, argumenta.
Ela ressalta que outras indústrias contam com incentivos, como leis de fomento e reservas de mercado. “Se o jornalismo é tão essencial para a democracia, como políticos e governos frequentemente afirmam, por que não conseguimos avançar nessa discussão básica?”, questiona Nalon.
Regulação e seus desafios
O cenário reforça o dilema entre regulação estatal, liberdade de expressão e o papel das big techs na moderação de conteúdo. No Brasil, a tensão entre o governo, o Supremo Tribunal Federal (STF) e plataformas digitais como X e Meta evidencia essa disputa.
O ministro do STF Alexandre de Moraes tem adotado uma postura rígida contra a disseminação de desinformação e discursos de ódio, determinando bloqueios e remoções de perfis no X. A medida provocou reação de Elon Musk, proprietário do X, que criticou as decisões judiciais e desafiou a Justiça brasileira.
Paralelamente, a Advocacia-Geral da União (AGU) cobrou explicações da Meta sobre os impactos do fim do programa de checagem de fatos nos Estados Unidos e sinalizou que a empresa pode enfrentar sanções caso sua nova política facilite a propagação de fake news no Brasil. No Congresso, o Projeto Lei das Fake News propõe maior responsabilidade das plataformas na moderação de conteúdo, mas encontra resistência entre parlamentares.
Para Ivan Paganotti, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-
-USP), o Judiciário tem sido mais eficaz do que o Executivo na aplicação de normas de moderação. “As diretrizes das plataformas, baseadas em princípios próprios, podem ser revistas a qualquer momento. No entanto, a legislação brasileira pode exigir que elas mantenham algum tipo de supervisão sobre esses espaços”, explica.
Nalon, do Aos Fatos, destaca que a União Europeia já recomenda, por meio de um código de conduta, que as plataformas contratem checadores de fatos profissionais. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adotou orientação semelhante nas últimas eleições, incentivando a colaboração entre plataformas e verificadores de fatos para combater a desinformação. “O TSE manterá essa recomendação para 2026?
Ainda não sabemos”, conclui.
Um desmonte sem precedentes
Além da desinformação, o enfraquecimento da checagem de fatos também acentua um problema crescente: a violência contra jornalistas e checadores. Profissionais da área já enfrentam ameaças constantes, especialmente em períodos eleitorais e em contextos polarizados. Com a retirada de mecanismos institucionais que garantiam certa proteção e legitimidade ao trabalho de checagem, cresce o risco de ataques organizados e perseguições on-line contra esses profissionais.
“A checagem é uma atividade de um risco muito alto. Institucionalmente, somos atacados através de processos na Justiça, mas os nossos repórteres sofrem ataques nas redes sociais, recebem ameaças. Subfinanciar esse tipo de atividade é correr o risco de que ela acabe. E não é sobre uma organização fechar as portas, mas sobre um campo inteiro correndo o risco de acabar da maneira que é hoje”, alerta Nalon. ■
Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.