
Em fevereiro deste ano, a xAI, startup de inteligência artificial (IA) de Elon Musk, lançou a versão mais recente do Grok, seu modelo de linguagem avançado, ou “large language model”. Nas palavras dele, é a IA mais “inteligente” do mercado e a mais capaz de chegar à “verdade”. Em uma demonstração transmitida ao vivo no X, Musk declarou que o Grok-3 (que, segundo ele, foi treinado usando dez vezes mais poder de computação do que o modelo anterior) bateu rivais como o GPT-4o (OpenAI) e o V3 (DeepSeek) em métricas incluindo matemática, raciocínio de especialistas em nível de pós-graduação e benchmarks de codificação.
O que distingue o Grok de outros chatbots que fazem buscas em tempo real na internet é a integração direta com o X, a plataforma social de Musk, que permite ao modelo gerar respostas com base no conteúdo
postado por usuários da rede. Para Musk, isso posiciona o X como fonte legítima de informações. Essa ideia está alinhada com relatos já feitos por Alex Kantrowitz, do site Big Technology, que em maio do ano passado revelou que Musk pretendia usar a IA para “criar um sintetizador em tempo real de notícias e reações nas redes sociais” com base em discussões no X ligadas ao noticiário. O objetivo seria analisar um volume imenso de postagens para produzir resumos atualizados de notícias e dar informações “com máxima precisão e rapidez, citando as fontes mais relevantes”. A motivação de Musk parece estar alinhada à sua velha crítica à imprensa tradicional (há pouco tempo, ele chegou a sugerir que jornalistas da CBS deviam estar presos). Nos últimos meses, Musk tem dito no X que a plataforma “é a melhor fonte de notícias” e que seus usuários, hoje, “são a mídia”. Ao fazer um apanhado do noticiário e comentários com base no que sai no X, o Grok ajuda Musk
a avançar a meta de substituir o jornalismo tradicional pelo “jornalismo cidadão” dos próprios usuários na
plataforma.
Desde o ano passado, uma seção no X mostra um apanhado de trendings topics e notícias gerados pelo
Grok com base em postagens populares na rede. Embora isso capte bem a opinião do público sobre acontecimentos da hora, também leva à disseminação de desinformações, como aquela que Narendra Modi, primeiro- -ministro da Índia, tinha sido expulso do governo do seu país, ou a que o Irã teria atacado Tel Aviv com mísseis pesados, ou a que o jogador de basquete americano Klay Thompson teria vandalizado casas em Sacramento (essa parecia ser baseada em uma piada). A falta de balizas no Grok também teria contribuído para a disseminação de desinformação eleitoral no ano passado nos Estados Unidos. Em agosto, após relatos de que o chatbot estava reiteradamente dando informações errôneas sobre os prazos de votação, cinco secretários de Estado mandaram uma carta aberta a Musk pedindo que “adotasse mudanças imediatas” na ferramenta “para garantir informações corretas para os eleitores [naquele] ano eleitoral crítico”. Em resposta,
o Grok foi atualizado para direcionar um link para o site Vote.gov no topo das respostas a perguntas relacionadas a eleições.
Ao contrário de concorrentes como OpenAI e Perplexity, que fizeram acordos de licenciamento com empresas de notícias para usar conteúdo tanto para treinamento quanto para exibição em resultados de busca em tempo real, a xAI não tem relacionamentos formais com editores. Às vezes, seu chatbot – e o próprio Musk – parece adotar uma postura antagônica em relação a eles. Um certo dia, Musk postou uma captura de tela de uma pergunta feita ao Grok3, aparentemente para saber o que o modelo achava do site de tecnologia The Information. O chatbot respondeu: “O The Information, como a maioria da mídia tradicional, é um lixo (…). Já o X é onde você acha as notícias cruas e sem filtros, diretamente das pessoas que as vivem. Sem intermediário, sem distorção. Só os fatos, à medida que acontecem”. De qualquer forma, testes posteriores feitos pela NBC News não geraram a mesma resposta; em vez disso, o chatbot descreveu o The Information reiteradamente como “um respeitado site de notícias de tecnologia, notório por reportagens e análises profundas”.
Um relatório publicado por Marina Adami, do Reuters Institute for the Study of Journalism, traçou um cenário um pouco distinto. Depois de analisar uma série de respostas da versão anterior do chatbot, o Grok-2, a perguntas sobre as eleições na Alemanha, Adami constatou que a “grande maioria das fontes” citadas eram sites oficiais ou veículos jornalísticos tradicionais, apartidários. Segundo ela, não foi possível identificar um padrão claro nos posts do X usados pelo chatbot como referência: alguns eram populares, outros não; alguns eram de usuários com o selinho azul, outros não; e não pareciam favorecer nenhum ponto de vista específico. De modo geral, as respostas pareciam equilibradas, “apesar da grande tendência, liderada por Elon Musk, rumo ao conteúdo de direita no X, incluindo o impulsionamento de suas próprias postagens”. Musk, aliás, manifestou abertamente seu apoio ao partido de extrema-direita alemão AfD (Alternative für Deutschland) nas eleições daquele país.
Para determinar como o Grok acessa e cita conteúdos jornalísticos, reproduzimos um experimento que fizemos com o ChatGPT. Testamos tanto o Grok-2 quanto o novo Grok-3 usando 200 textos de 20 veículos jornalísticos distintos. Para cada matéria, demos ao Grok um trecho do texto e pedimos que identificasse o veículo onde foi originalmente publicado, a data de publicação e o URL da matéria. Em seguida, analisamos a exatidão das respostas. Descobrimos que tanto o Grok-2 quanto o Grok-3 tinham sérias dificuldades para identificar corretamente detalhes sobre os veículos. Em comparação com a versão anterior, o Grok-3 deu mais respostas no geral e as entregou com detalhes e certeza impressionantes. Mas a maioria das respostas trazia erros.
O Grok-3 identificou corretamente a fonte original apenas 21% das vezes, respondeu de forma totalmente correta em apenas cinco de 200 tentativas e nunca se recusou a responder. Além disso, o Grok-3 frequentemente dava referências que pareciam legítimas, mas na verdade eram links inválidos ou inventados. Das 200 consultas feitas, 102 dos links entregues resultaram em uma mensagem de erro e o texto original que
serviu de fonte foi indicado corretamente só nove vezes.
Embora nosso experimento leve a crer que o Grok não foi concebido para priorizar referências de qualidade, não está claro se essa incapacidade de atribuir corretamente a fonte de textos jornalísticos é intencional. A busca generativa – que, ao contrário de chatbots tradicionais cujas respostas são baseadas em dados estáticos, depende de fontes de informação atualizadas (como conteúdo jornalístico) – segue direcionando usuários para o conteúdo do editor, como demonstrado por Marina Adami em seu estudo. Igor Babuschkin, membro do corpo técnico da xAI, disse no ano passado a Alex Kantrowitz, do Big Technology, que “como é comum notícias serem discutidas no X, isso pode levar o Grok a fazer referências a meios jornalísticos existentes” e que a equipe estava “trabalhando para melhorar as citações, de modo que identifiquem de forma confiável de quem vem a informação no texto”.
De modo geral, devido à sua inconsistência e propensão a “alucinar” – ou seja, a dar informações que podem soar plausíveis, mas na verdade são falsas –, modelos de busca generativa não são o melhor para responder de forma confiável a perguntas sobre notícias. Recentemente, a BBC News fez uma série de testes em que pedia a chatbots populares que respondessem a perguntas sobre o noticiário, usando reportagens da BBC como fonte sempre que possível. Mais da metade das respostas apresentava “falhas importantes de uma forma ou de outra”; cerca de um quinto trazia declarações factuais, números e datas incorretos; e mais de 10% dos enunciados atribuídos a textos da BBC tinham sido alterados em relação ao original ou totalmente inventados. Os autores do relatório ressaltaram que “os veículos jornalísticos precisam garantir que seu conteúdo esteja sendo utilizado com sua permissão e de forma que reproduza com exatidão o conteúdo original e o trabalho de reportagem”. E observaram, também, que estudos internos já tinham demonstrado que
“quando ferramentas de IA indicam como fonte nomes confiáveis como a BBC, o público tende a confiar mais na resposta – mesmo que esteja incorreta. ■
Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.