Zulfugar Karimov. Unplash

Shutterstock

Nova política da Meta repercute na comunidade de checagem de fatos da Índia

Quando Mark Zuckerberg cancelou o programa de fact-cheking independente da rede, conversei com meus antigos colegas, que estão se recuperando das notícias

25 outubro 2026

Zulfugar Karimov. Unplash
Zulfugar Karimov. Unplash

No dia 7 de janeiro, no comecinho de uma terça-feira no vale do silício, Mark Zuckerberg anunciou mudanças radicais na empresa que preside, a Meta. “É hora de voltar às nossas raízes no que tange à liberdade de expressão”, declarou. A partir de então, a Meta iria relaxar filtros, liberar mais conteúdo político e cancelar o programa de checagem de fatos por terceiros, a começar pelos Estados Unidos. Essa última decisão colocou fim a uma iniciativa lançada em 2016 na esteira da primeira eleição de Donald Trump – iniciativa na qual foram investidos mais de US$ 100 milhões.

Às vésperas do retorno de Trump à Casa Branca, a checagem seria substituída por “notas da comunidade”, um sistema no qual usuários das plataformas da Meta decidem o que é falso ou não. “O pessoal da checagem tem uma orientação política muito marcada e acabou mais destruindo do que gerando confiança”, disse Zuckerberg. Quando recebi a notícia, logo pensei nos meus antigos colegas no The Quint, um dos vários veículos da Índia com os quais a Meta tinha feito parcerias para a checagem de informações. O The Quint, onde fui editor-adjunto, é uma organização de cerca de 40 jornalistas. Publica em hindi e em inglês e tem uma seção especial, a Webqoof, cujo objetivo é combater as desinformações e promover a alfabetização midiática. O nome, um trocadilho com o termo em hindi “bewakoof”, é uma alusão à estupidez de cair em desinformações na web. Ainda que a redação do The Quint tenha encolhido nos últimos anos – a mídia na Índia vive muitos dos mesmos desafios econômicos e políticos que o resto do mundo –, a equipe da Webqoof permaneceu bastante consistente, contando com seis ou sete checadores que produzem cerca de 90 textos por mês, ou mil por ano. Isso porque o trabalho desse pessoal foi, até aqui, reiterada mente bancado por verbas do programa de fact-checking terceirizado da Meta. Esse apoio não só ajudou a equipe a desmascarar falsidades em grande escala naquela que é, muito provavelmente, a capital mundial da desinformação em termos de volume, mas também abriu espaço para mais jornalismo importante: um especial de multimídia imersivo para ajudar o leitor a detectar imagens geradas por inteligência artificial (IA), uma série de vídeos sobre como a desinformação on-line levou a danos no mundo real e uma série examinando alegações de políticos. E mais: os valores destinados à verificação de fatos eram grandes o suficiente para subsidiar o trabalho de outros profissionais do The Quint.

Esse senso de estabilidade desapareceu bruscamente. Embora no comunicado Zuckerberg tenha abordado especificamente os Estados Unidos, onde há pouco ele fez uma contribuição de US$ 1 milhão para os festejos da posse de Trump, a Meta é um dos maiores financiadores de operações de fact-checking mundo afora, bancando iniciativas para combater a desinformação em mais de cem países. “Passei a noite toda angustiado”, ouvi de um jornalista do The Quint. “Esse trabalho estava a toda e pode deixar de existir por falta de verba. O próprio rumo da minha carreira pode ter de mudar.” Um outro disse: “Estou desanimado, totalmente paralisado”.

No final daquela primeira semana de janeiro, o The Quint e uma leva de parceiros internacionais de verificação
de informações assinaram uma carta aberta à Meta, argumentando que a decisão de cancelar o programa “foi
um retrocesso para aqueles que desejam uma internet que prioriza informações fidedignas e confiáveis”. Na
mesma carta, se comprometeram a seguir com o trabalho. Pelo acordo de terceirização da checagem de fatos com a Meta, o The Quint recebia para avaliar postagens que viralizavam em suas respectivas plataformas e sinalizar qualquer coisa que contivesse desinformação – indicando se a informação era falsa, se estava fora de contexto ou se trazia fotos ou vídeos manipulados. Essa informação aparecia nas postagens, junto com o aviso de que algo tinha sido checado por uma fonte independente. Quem quisesse também podia clicar no link “entenda o motivo”, onde o parceiro de checagem explicava como havia chegado àquela conclusão. Segundo a Meta, toda vez que um verificador de informações sinalizava que uma postagem era falsa, a rede iria “reduzir significativamente a distribuição do conteúdo em questão para que chegasse a menos pessoas, rotulá-lo como tal e alertar gente que tentasse compartilhá-lo”. Não foi, de jeito nenhum, uma solução perfeita, pois a mentira e a desinformação em plataformas da Meta simplesmente correm soltas. Mas foi um casamento de conveniência, uma fonte constante de recursos para meios cujo modelo de negócios tinha sido totalmente revirado pelas redes sociais. A retirada desses recursos traz consequências sérias em um país como a Índia, onde o mecanismo de “notas da comunidade” dependeria da “sensatez” de um público que se mostra cada vez menos confiável. E até letal: em 2018, mais de dez pessoas foram mortas por multidões ensandecidas quando falsos boatos de sequestro de crianças circularam pelo WhatsApp. Um importante
impulsionador na crise de desinformação no país é a animosidade contra muçulmanos – uma minoria particularmente vulnerável, já que o primeiro-ministro, Narendra Modi, é um nacionalista hindu que demonstra cada vez menos tolerância por outros grupos. Em 2023, por exemplo, um acidente de trem com vítimas fatais foi imediatamente seguido por declarações maliciosas na internet alegando que a culpa fora do chefe da estação onde ocorreu a tragédia, um muçulmano. Os verificadores no The Quint correram a contrapor
essa alegação a informações colhidas de gente que estava na cena do acidente, de autoridades e de imagens
do local. A conclusão foi que acusações circulando nas redes sociais eram falsas. Postagens no Facebook
que difundiam esses boatos fora logo acompanhadas de avisos atestando sua falsidade. Quando conversei com ex-colegas, estávamos de acordo que “notas da comunidade” jamais teriam tido o mesmo resultado – ou a mesma credibilidade.

“Ter parceiros verificando informações era melhor do que notas da comunidade, pois [esses parceiros] aderiam a princípios elevados não só da verificação, mas também de jornalismo”, disse um editor.
O espectro de desinformação que se avizinha é vasto – não só na política, mas também na saúde pública,
na liberdade religiosa, na educação.

Nos Estados Unidos, desde o pronunciamento de Zuckerberg, checagens antigas já começam a aparecer de outra forma nas plataformas da Meta. Voltando à Índia, jornalistas estão acompanhando com ansiedade a questão. “A situação não é assustadora só para verificadores de informações”, disse um ex-colega do The Quint. “É para qualquer pessoa.” ■

Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.

Mais da RJE

Mediação algorítmica, agentes autônomos e requisitos organizacionais da implementação prática da IA nas redações

Para onde iremos e que cuidados tomar?