
Em março de 2022, o National Observer, um meio digital canadense que cobre política e meio ambiente,
publicou uma reportagem sobre Squamish e outras cidades do país nas quais, nos últimos tempos, haviam
surgido páginas no Facebook chamadas “Voices” que se passavam por iniciativas comunitárias. Depois de
escarafunchar os logs do Facebook, o veículo descobriu que todas essas páginas estavam ligadas ao grupo
de direita Canada Proud. A reportagem citava um estudioso de campanhas digitais que explicava como
essas páginas usavam postagens sobre trânsito ou moradia com o intuito de “gerar engajamento e conquistar a confiança do público” – para, então, às vésperas de uma eleição, “bombardear os seguidores com conteúdo
explicitamente político ou campanhas difamatórias”.

Com o ano avançando, posts e panfletos continuaram circulando. Moradores que se atreviam a questionar quem estaria bancando o Squamish Voices começaram a receber, no próprio Facebook, mensagens de contas desconhecidas ameaçando medidas legais se não apagassem o que tinham escrito no prazo de 24 horas.
A imprensa local noticiou o fenômeno, mas sem estabelecer conexões diretas. Até que, antes de uma eleição, um site de jornalismo investigativo sem fins lucrativos, o The Breach, publicou uma reportagem detalhada –
“In this B.C. town, big money is bulldozing democracy” – contando como interesses financeiros estavam atropelando a democracia em Squamish. O texto aprofundava a investigação sobre o Squamish Voices e vinculava as outras duas páginas “locais” a diferentes grupos com interesses econômicos no município, revelando exemplos de desinformação (como uma acusação anônima e sem fundamento de agressão sexual contra um candidato a prefeito que havia recusado doações e encontros com incorporadoras) e valores gastos em postagens patrocinadas – em um caso, até US$ 78 mil, quando por lei o teto de gastos para eleições municipais no Canadá é de pouco mais de mil dólares. Dru Jay, editor do The Breach, explicou: “Era um problema local, mas era também a linha de frente de uma nova estratégia empresarial para debilitar a democracia na esfera municipal sem qualquer transparência”. Segundo Jay, de acordo com o Google Analytics, a reportagem teve 15 mil visualizações – 2.500 delas vindas de Squamish. Dias depois, a história ganhou ainda mais repercussão com a publicação de outro texto investigativo pelo The Tyee, outro meio sem fins lucrativos da província.
Ao todo, 6.718 eleitores votaram no pleito municipal de Squamish – uma participação de 39%, dez pontos percentuais acima da média da província naquele turno das eleições municipais. Saíram vitoriosos justamente os candidatos que tinham sido alvo da campanha de desinformação. O resultado, diante da enxurrada
de falsidades que antecederam a eleição, foi uma vitória para o jornalismo – vitória que, no entanto, dependeu
das redes sociais. O Facebook foi, paradoxalmente, tanto a origem da desinformação quanto o meio mais eficaz para combatê-la. Daí o duro golpe quando, menos de um ano depois, o governo canadense seguiu o exemplo australiano e aprovou uma lei que obrigava as gigantes da tecnologia a remunerar meios de comunicação canadenses pela exibição de seu conteúdo jornalístico. A medida levou a Meta – dona do Facebook – a sair do mercado jornalístico do país.
Em um comunicado contra a legislação, a Meta argumentou que os acessos originados do Facebook geravam
milhões de dólares em receita para os meios e que o jornalismo representava apenas 3% do que os canadenses viam em seus feeds. Em outras palavras, a Meta não precisava do jornalismo canadense – era o jornalismo canadense que precisava da Meta. De todo modo, a lei (a Online News Act) foi aprovada. A Meta começou a eliminar notícias dos feeds no Canadá em julho de 2023; em agosto, o bloqueio já era total. “Uma reportagem como a que fizemos sobre Squamish não teria nem de perto o mesmo impacto hoje, pois já não é possível compartilhá-la no Facebook”, explicou Jay.
A saída da Meta do jornalismo não impediu os canadenses de buscar notícias, mas certamente dificultou o acesso a fontes confiáveis. Segundo um estudo do Media Ecosystem Observatory (parceria entre a McGill University e a University of Toronto), no ano seguinte ao bloqueio os canadenses passaram a ver menos jornalismo on-line, embora continuem usando as plataformas da Meta para ler, assistir e ouvir notícias. Dos entrevistados no estudo, 70% disseram acessar notícias no Facebook e 65% no Instagram. A explicação está, em parte, no maior compartilhamento de prints de tela de conteúdos jornalísticos, que triplicou nos quatro meses após o bloqueio. Mas os pesquisadores também descobriram que apenas 22% dos canadenses sabem que a Meta baniu o jornalismo. Na prática, a busca por notícias nas redes sociais no Canadá virou um jogo
de “telefone sem fio” que a maioria nem percebe que está jogando, com informações sendo repassadas sem
contexto e sem o link para as fontes originais. “E [o pior é que] essa ausência nem é explícita. [A Meta] não só
bloqueou o acesso ao conteúdo jornalístico, mas também facilitou a distorção dessa informação”, disse
David Beers, editor-fundador do The Tyee. “Nem um ditador das antigas, no melhor estilo orwelliano, teria
concebido um plano tão astuto.” No outono canadense, e na pior temporada de incêndios florestais já registrada no país, o bloqueio de notícias imposto pela Meta passou por sua primeira grande prova. Só na Colúmbia Britânica, foram mais de 380 focos de incêndio simultâneos e cerca de 20 mil pessoas sob ordem de evacuação. Segundo autoridades, anúncios de utilidade pública não estavam circulando como deveriam.

conquistar a confiança do público – para, então, às vésperas de uma eleição,
bombardear os seguidores com conteúdo político ou campanhas difamatórias. Reprodução.
Em uma coletiva de imprensa, David Eby, governador da província, declarou: “Acho absurdo que, a essa altura da crise, os donos do Facebook e do Instagram ainda não tenham vindo a público para declarar ‘olha, o mais
importante agora é que a população esteja segura, o mais importante que todos tenham acesso a informações básicas por nossas plataformas, e vamos deixar para mais tarde a nossa briga com o governo federal e com a nova lei’”. Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá à época, classificou a postura da Meta de “inaceitável”.
Naquele momento, embora já tivesse sido sancionada, a nova lei não tinha sido regulamentada, pois o governo ainda tentava negociar com as big techs que seriam afetadas pela legislação: pelo critério do tamanho, além da Meta, a única outra seria o Google. Em novembro, o Canadá chegou a um acordo com o Google pelo qual a empresa não bloquearia notícias e, além disso, financiaria um recém-criado Canadian Journalism Collective, um fundo que distribuiria US$ 100 milhões ao ano para meios locais (cerca de US$ 70 milhões a menos do que o Google teria de pagar anualmente a meios de comunicação canadenses à luz da nova lei). A Meta, por sua vez, não deu sinal de que faria concessões.
Por ora, e na esperança de que a Meta reveja sua posição, o governo canadense continua a adiar a aplicação
da legislação, assumindo o ônus do acesso bloqueado ao conteúdo jornalístico sem colher os benefícios
das multas previstas pela lei. Em Squamish, o ano de 2024 trouxe mais um ciclo eleitoral, dessa vez para o governo da província. Quem queria informações fidedignas até encontrava, mas precisava buscar com muito mais empenho do que de costume. O público que costumava fazer comentários em postagens de meios de comunicação locais no Facebook já não conta com esse espaço on-line de debate – e de geração de pautas.
Em Squamish, a classe política perdeu esse canal direto com o eleitor. Há um lado positivo. “Isso baixou o tom da discussão on-line e obrigou as pessoas a conversar de verdade”, diz Jenna Stoner, uma integrante do conselho municipal que foi alvo da campanha de desinformação. “Teve gente que simplesmente saiu das redes sociais, de tão desiludida que ficou.” Hoje, Stoner e os colegas de conselho estão apostando cada vez
mais em eventos presenciais e em encontros informais com eleitores.
Enquanto isso, páginas pseudojornalísticas seguem ativas no Facebook, postando comunicados de imprensa
e espalhando informações sem qualquer fundamento. Meios de comunicação, por sua vez, estão buscando saídas. Isso inclui pedir a jornalistas da equipe que usem sua conta particular para postar screenshots de matérias com links abreviados (por enquanto a Meta está liberando essas postagens).
Fora isso, os meios estão buscando outras formas de chegar ao público. Uma delas é o TikTok, que escapa da nova legislação por ainda não ser grande o suficiente no Canadá.
Um grupo de 20 veículos independentes do país se uniu para criar o Unrigged, um site que agrega links para suas reportagens. Beers, do The Tyee, contou que o meio tem recorrido à sua lista de e-mails, que acumulou mais de 80 mil endereços ao longo de 20 anos. Isso, no entanto, não ajuda ninguém a angariar novos leitores. “Essa não é uma boa eleição para o jornalismo político, pois a Meta está bloqueando o acesso [a essa informação]”, explicou. “Daqui a dez anos, será que ainda haverá alguém criando um novo veículo dirigido a
comunidades locais?”
Um punhado de veículos optou por uma medida meio extrema: pagar à Meta para distribuir o conteúdo jornalístico. Embora a empresa tenha bloqueado o acesso dos canadenses a páginas de veículos de imprensa,
esses veículos ainda podem acessar a plataforma e pagar para divulgar seu conteúdo para públicos específicos. “É claro que é irônico que a gente esteja pagando para anunciar justamente na Meta, que bloqueou o acesso ao nosso material”, diz Linda Solomon Wood, editora do National Observer.
“Mas estamos destinando só uma pequena parte da nossa verba publicitária para [a rede]. A maior parte
dessa verba vai para o Google, que optou por negociar um acordo com o Canadá.” A IndigiNews, uma publicação operada por mulheres indígenas e lançada em 2020, perdeu metade do tráfego de um dia para o outro após o bloqueio da Meta. Sua editora, Eden Fineday, fez as contas: pagar à Meta para divulgar reportagens da IndigiNews durante um ano custaria entre US$ 15 mil e US$ 20 mil. Para ela, vale
a pena, já que nenhuma outra forma de distribuição chegaria como o Facebook a comunidades indígenas, volta e meia isoladas. “Se tivermos verba e pudermos continuar arrecadando fundos para isso, tudo bem”, disse. “Mas, e se não conseguirmos?”
Se a nova lei for de fato aplicada, postagens pagas para divulgar notícias poderão sujeitar a Meta a multas. Nesse caso, o dinheiro pago por meios de comunicação pelo privilégio de divulgar seu material jornalístico acabaria funcionando como um imposto – um meio de cobrir um custo que o governo canadense impôs com o intuito de proteger a imprensa do país. O governo está ciente desse dilema, mas ninguém com quem falei mencionou planos para rever a lei. Pascale St-Onge, ministra do Patrimônio Canadense e uma das responsáveis pela redação da nova legislação, defendeu que a lei é transparente e que veio para ficar. “As gigantes da tecnologia vão ter de dar sua justa contribuição”, garantiu. Solomon Wood, editora do National Observer, segue apoiando a medida. “Acho correto exigir que Meta e Google – que jamais pagaram impostos no Canadá, mas ganharam bilhões ao dominar o mercado publicitário do país e retirar essa receita da mídia nacional – devolvam algo ao Canadá”, afirmou. A editora reconhece que a legislação “não é perfeita”, mas insiste que “a decisão foi acertada”. ■
Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.