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Tormenta interna

Há muitos jornalistas ocultando problemas de saúde mental e dependêncian química para fugir do estigma, não serem vistos como um problema e continuar trabalhando. Quero que saibam que não estão sozinho

24 outubro 2026

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é abril de 2016 e estou em londres para editar um documentário. Acabei de voltar de seis semanas no Iraque, acompanhando forças especiais do país numa missão para retomar do Estado Islâmico o controle de maior província do país. Estou no saguão do hotel Ace, só de cuecas, cercado por policiais. Tenho uma cadeira
nas mãos e recebo do detector de fumaça instruções secretas para usá-la como arma. Uma onda de adrenalina percorre meu corpo – exatamente como dias antes, na linha de frente. Dou um passo à frente e agito a cadeira como um animal encurralado. “No chão!”, grita um policial. Vejo os pontos vermelhos dos tasers volteando no meu peito. Caio de joelhos e sinto as algemas se fechando sobre meus punhos antes de ser lançado ao chão. Ao me recusar a ficar de pé, meia dúzia de policiais me levanta e me carrega até a traseira de um furgão da Polícia Metropolitana. Depois de 24 horas em uma cela, bebendo água de uma privada imunda para matar a sede, sou levado a um hospital psiquiátrico.

Foi lá que ouvi pela primeira vez a expressão “bipolar tipo 1”, um nome para a tormenta que me invade. Por anos, soube que algo não estava bem. Tinha surtos de euforia tão intensos que as pessoas à minha volta achavam que ou estava bêbado ou drogado – e minhas farras insanas só reforçavam essa impressão. Depois de cada pico de euforia, vinha a queda – brutal, solitária. Ficava horas na banheira, a pele enrugada, vendo a felicidade escoar pelo ralo. Esses extremos pareciam apenas parte de quem eu era: um ser que sentia e vivia tudo de forma mais intensa. Para colegas de profissão, era o que chamávamos de la vida pirata: o caos da existência de um correspondente de guerra.

É difícil dizer onde termina a personalidade e onde começa o transtorno. Venho cobrindo guerras desde 2009, quando cheguei ao Iraque com 24 anos. E a verdade é que curto esse trabalho. Talvez até demais. É feio dizer, mas assim como muitos soldados querem ver combate, o mesmo vale para muitos jornalistas. Certa vez, acompanhei tropas americanas que faziam a guarda de uma refinaria de petróleo no Iraque – uma missão frustrante, monótona. “Quero atirar em alguém, porra!”, ouvi um soldado dizer. E eu queria fotografá-lo atirando em alguém. Naquele mesmo ano, fiz outra cobertura no Afeganistão, onde soldados disparavam pra valer durante combates. E foi eletrizante. Quanto mais me embrenhava na linha de frente, quanto mais terrível o que eu registrava, mais eu amava meu trabalho – e mais sucesso profissional eu tinha.

Mas, agora, sentado em um hospital em Londres, eu me perguntava qual a relação entre meu quadro mental e o mundo no qual tinha vivido todos aqueles anos. Será que minha condição tornara minha escolha de
ofício inevitável? Ou teria sido o contrário, com minha profissão acelerando meu quadro? E, acima de tudo,
por que demorara tanto para termos caído na real – tanto eu como aqueles ao meu redor?

Estava diante do laptop quando ouvi a primeira explosão. Eram 15h28 do dia 25 de janeiro de 2010 e lá estava
eu em Bagdá. Pulei da cadeira, peguei minha câmera e corri para a laje do prédio onde estava para tentar entender de onde viera a explosão. Três minutos depois, outro estrondo me interrompeu enquanto tentava descer dali do alto. Tiros rasgavam o ar acima da minha cabeça – disparos vindos do posto de controle do hotel Hamra, do outro lado da rua. Me abaixei, esperando que viesse mais uma explosão. Já tinham atacado o
Hamra antes, em 2005, atraindo as pessoas para fora com uma bomba só para matá-las com outra. Bum!

Uma terceira explosão sacudiu as paredes. Esperei, a respiração ofegante, e só então me atrevi a sair pela porta da frente e atravessar a rua. Era a hora do rush. A rua era um caos de metal retorcido, carros em
chamas, destroços. Portas de veículos salpicadas de sangue, laranjas espalhadas pelo chão, arrancadas dos galhos de árvores chamuscadas.

Entre os escombros, gente vagando atordoada, aos prantos, ferida, clamando por ajuda. Caminhando por
entre aqueles sobreviventes em choque, me sentia um voyeur, um turista do trauma. Empunhei a câmera e
comecei a fotografar. Sentia um propósito detrás da lente. Era um escudo contra o horror – tudo parecia mais
suportável visto pelo visor.

Uma menina veio cambaleando na minha direção, o rosto coberto de sangue. Fotografei. Ela gritou e correu até mim, me golpeando com punhos pequenos, exaustos, até desabar no chão soluçando. Alguém me disse que a mãe dela acabara de morrer. Pela primeira vez na minha curta carreira, percebi que certas fotos não
devem ser tiradas.

Vendi para o The New York Times as imagens que registrei naquele dia. Saíram na primeira página, acima da dobra – meu primeiro trabalho publicado internacionalmente. Mas qualquer euforia pelo sucesso durava
pouco. O atentado ao hotel Hamra foi um ato terrorista de um gênio maligno, que estilhaçou janelas dos
quartos onde moravam jornalistas e destruiu nossa sensação de segurança. Eles estavam de olho em nós,
vigiando nossos lares e sucursais, avaliando nossa proteção quando saíamos para comprar cigarros.

Estava no Iraque porque tinha iniciado a carreira e alguém me aconselhara a ir para onde havia muita coisa
acontecendo e poucos jornalistas. Parecia uma boa escolha. O Iraque era o país do meu pai, que tinha ido
embora na década de 1960. Jamais tinha pisado lá e queria ver a coisa com meus próprios olhos. O Iraque
que encontrei era muito diferente daquele que meu pai deixou para trás. Nas ruas, crateras abertas por
explosivos eram tomadas pelo lixo.

A paisagem entrecortada por muros de concreto contra explosões. Postos de controle com flores de plástico
desbotadas. Postes sucumbindo sob um emaranhado de ligações clandestinas. Esgoto correndo pelas ruas.
Muita gente acha que estar em uma zona de guerra é pura adrenalina. Na verdade, é um tédio: uma
excitação extrema envolta por longos períodos de inatividade. Passei a me identificar com os sacos plásticos
pretos que via por toda parte, presos ao arame farpado, se retorcendo ao vento sem nunca se soltar. Passava boa parte do tempo bebendo Heineken quente e fumando um cigarro atrás do outro na frente do ventilador de um quarto superfaturado.

Em pouco tempo, me acostumei às oscilações extremas de humor que vinham com o trabalho. A euforia do sucesso em uma reportagem, a adrenalina do combate, a correria para cumprir prazos – seguidos do tédio e da depressão, e do efeito anestésico das drogas e do álcool para prolongar um pouco mais qualquer boa sensação.

Quando fui parar no hospital, ouvi do meu pai um ditado árabe: “li kul jawad kubwa”, algo como “todo cavalo um dia cai”. Caí muito ao longo dos anos (um colega me disse um dia que eu me atirava na vida como um patinador prestes a dar de cara no gelo). Ia de conflito em conflito, de bebedeira em bebedeira, de publicação em publicação. O sucesso sempre alternado com o fracasso. Para manter minha carreira viva, me reinventei várias vezes: fui fotojornalista, cinegrafista, repórter, correspondente, apresentador, escritor. Minhas fotos apareciam regularmente na capa do The New York Times e de outros grandes veículos. Tinha contratos com a NPR e a BBC. Escrevi para a Foreign Policy e a Newsweek. Fiz documentários e reportagens para a BBC e a Vice News; cheguei a ocupar o posto de correspondente na NBC.

Mas também tive episódios intensos, fechando portas ao me indispor com editores que me achavam um
arrogante, um babaca, um bêbado, um viciado – e não sem razão. Buscava refúgio em drogas e no álcool,
mas nada muito diferente do que muitos colegas faziam. Volta e meia ia para Beirute ou Berlim para me jogar
em farras com gente da mesma tribo que eu. Mas o que me pegava mesmo era o pico da euforia, o maior barato de todos. Uma sensação embriagante de absoluta confiança, de energia sobre-humana e de propósito.

Não questionava meu estado mental quando estava assim. Eu me sentia espetacular. Quem me via assim achava que era o efeito de alguma droga – em Bagdá, os colegas especulavam qual seria. Mas aquela euforia era natural e me enchia de energia e de uma arrogância desmedida.

Certa vez, chamei o editor de fotografia do The New York Times de “babaca” no Facebook e marquei todo mundo que conhecia no setor. Disse ao editor de internacional do The Times londrino que eu seria melhor do que eles no comando da News Corp e que deveriam derrubar de vez o paywall do jornal.

Durante esse tempo, ouvi mais de uma vez editores comentando discretamente que eu devia estar com estresse pós-traumático de tanto cobrir cenas de violência. Alguns demonstravam preocupação, mas
não iam muito além – e eu tampouco. Em uma cultura profissional que exalta os lunáticos dessa tribo, aquilo eram só ossos do ofício.

O transtorno bipolar é um quadro mental complexo, cujas causas ainda não são totalmente compreendidas. Diversos fatores podem contribuir para seu desenvolvimento, incluindo predisposição genética, desequilíbrios neuroquímicos, fatores ambientais, situações repentinas de sucesso ou fracasso, medicação errada ou falta de tratamento, privação de sono, luto e abuso de drogas.

Eu preenchia todos esses requisitos. Todo mundo tem altos e baixos, mas a pessoa bipolar vive extremos muito mais intensos. O transtorno bipolar, que afeta cerca de 1% da população mundial, envolve oscilações drásticas de humor: de episódios de uma mania eufórica e hiperativa a surtos de depressão cruel e
paralisante. A maioria das pessoas entende o que é a depressão, mas a mania é mais difícil de explicar para quem nunca a vivenciou. A pessoa se sente invencível, segura de si, acima de tudo e de todos. A necessidade de se mover, de falar – de agir – é avassaladora. Dormir vira algo irrelevante. A sensação de clareza, de confiança e de criatividade é tão embriagante que, se fosse uma droga, deixaria todos viciados.

Talvez não surpreenda que personagens famosos da história – gente como Winston Churchill, Vincent van Gogh, Virginia Woolf – provavelmente tenham sofrido de transtorno bipolar. É um quadro que traz perigos: certa vez, ao saber da morte de um amigo, saí de casa em Istambul descalço e, quando dei por mim, tinha percorrido mais de 15 quilômetros sem saber como tinha chegado e onde estava.

Ao longo da história, o transtorno bipolar foi subdiagnosticado, sobretudo em suas formas mais sutis. Com
os avanços no campo da saúde mental, ficou mais evidente a distinção entre a bipolaridade e outros distúrbios do humor. Estudos indicam que até 70% das pessoas com transtorno bipolar receberam, a princípio, um diagnóstico de depressão ou outro transtorno mental.

Para alguém numa profissão como a minha, o diagnóstico pode ser ainda mais difícil. Transtornos mentais no
jornalismo costumam passar batidos, pois a cultura do álcool e das drogas é muito comum nesse meio. No mundo do telejornalismo, por exemplo, onde há mais recursos e mais riscos, a cobrança também é
maior. Um correspondente precisa aparecer bem diante das câmeras, pensar rápido e demonstrar confiança. A cocaína ajuda. É um vício caro, mas onde o dinheiro corre solto, a droga também.

Também complicou o fato de que, como freelancer, eu não tinha relações de trabalho que talvez pudessem ter permitido uma intervenção mais cedo. Quando um profissional fixo passa por uma crise, o veículo de comunicação tende a dar mais apoio, inclusive pagando por terapia, tratamento ou reabilitação. Já alguém independente como eu precisa se virar sozinho. Quando não aguentamos mais, geralmente somos descartados.

Conheço muitos jornalistas que já passaram por crises de saúde mental ou lutaram contra o vício. Poucos
admitem isso abertamente para seus empregadores, pelo medo do estigma – especialmente os independentes.

Há pouco, fiquei na casa de um amigo freelancer, um premiado repórter de guerra, que me confessou ter passado por uma internação para tratar a dependência de cocaína e estar Quando perguntei se tinha contado
isso a seu principal cliente, ele respondeu: “De jeito nenhum! Seria o fim da minha carreira”. Produtores locais, os chamados “fixers”, são os que mais sofrem.

Conheço uma fixer no Oriente Médio que penou nas mãos de um jornalista estrangeiro. O relacionamento abusivo a deixou com insônia, crises de pânico e pesadelos que a faziam despertar aterrorizada.
Para enfrentar a situação, ela levava o próprio corpo ao limite, se exercitando até passar mal. Mas nem
isso ajudou. Quando denunciou o abuso ao meio no qual o jornalista trabalhava, a empresa até tomou
providências contra ele. Já ela não recebeu qualquer apoio ou tratamento. Teve de juntar os cacos sozinha. O meio jornalístico, para ela, é um sistema que deixou um predador agir e a abandonou quando ela mais precisava.

Em um setor movido pela constante pressão, crises de saúde mental, em todas as suas formas, são pouco reconhecidas. Muita gente sofre em silêncio por receio de ser marginalizada, ainda que a própria natureza do trabalho – jornadas exaustivas, exposição a traumas, prazos implacáveis – afete diretamente o bem-estar do indivíduo.

Depois do episódio da cadeira no hotel, passei uma semana em um hospital psiquiátrico. Na esteira, voltei direto ao trabalho, ainda em um estado maníaco. Tentei ocultar minha condição, mas não estava pronto para aquele retorno. Devia milhares de dólares ao hotel por todo o estrago, mas o verdadeiro prejuízo foi para minha carreira.

Tenso e irritável, briguei com meu editor, pondo fim àquela relação profissional. Se eu tivesse sofrido um dano físico, teria recebido cuidados. Em vez disso, virei apenas outro freelancer descartado. Sem
compensação, sem apoio. Um brinquedinho quebrado, nada mais.

No final, o diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1 acabou me ajudando. Deu um nome ao caos e abriu uma porta para o tratamento. Também me fez enxergar o sofrimento que tinha causado a mim mesmo e aos outros ao fingir que nada estava errado, ao interiorizar a ideia de que era descartável. Como a maioria dos
jornalistas com problemas de saúde mental, eu só queria continuar trabalhando – ainda que isso significasse esconder quem eu era de editores e abandonar contratos e relações profissionais quando eu era visto como alguém difícil de lidar.

Mesmo agora, ao fazer este relato, não consigo afastar o medo de que isso possa destruir minha carreira. Mas preciso abrir o jogo e falar por muitos outros que não podem fazê-lo. Problemas mentais assolam nossa profissão. Tem muito jornalista se ocultando por aí, lutando contra o estigma da saúde mental ou da dependência química (ou ambos), tentando não parecer um ser problemático para poder continuar trabalhando. Quero que saibam que não estão sozinhos. ■

Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024.

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