
Seria o jornalismo investigativo mero pleonasmo ou redundância deletéria? A pergunta ainda se repete no meio profissional e acadêmico, com relativa frequência, em rodas de conversa e eventos sobre jornalismo. Recordo como exemplo um seminário de imprensa (O novo jornalismo em debate), realizado pelo Banco do Brasil, em novembro de 2016, em Brasília.
Reunidos em torno do tema “Novo modelo de negócios na Imprensa: ameaça ou oportunidade para a investigação jornalística?”, figuras do primeiro time do jornalismo brasileiro como Sérgio Léo (ex-repórter do Valor Econômico), o saudoso Alberto Dines (fundador do Observatório da Imprensa) e Júnia Nogueira de Sá (ex-ombudsman da Folha de S.Paulo) criticavam essa categoria, citando a famosa frase de Gabriel García Márquez, devidamente retirada do contexto, segundo a qual todo jornalismo é investigativo, senão não seria jornalismo. Naquela mesa, em solitário contraponto, o premiado repórter investigativo Mauri König (vencedor dos prêmios Esso, Embratel e Vladimir Herzog, hoje docente em Curitiba/PR) defendia o gênero, afirmando que se tratava de uma modalidade de produção jornalística totalmente diversa da cobertura factual.
Dines, em edição do programa Observatório da Imprensa na TV que foi ao ar em outubro de 2013, especial sobre jornalismo investigativo, trabalhava com a ideia da suposta “polêmica redundância” – a de que todo
jornalismo deveria ser investigativo. Naquela ocasião, uma das entrevistadas foi a renomada jornalista Elvira Lobato (Folha de S.Paulo), que declarou sem meias palavras: Não se aprende na escola a fazer jornalismo investigativo. Eu acho até que o repórter precisa ter um dom, inconformismo, uma curiosidade que não vai estar nos demais, ele vai desconfiar de alguma coisa que parece normal e não é normal. Então é um profissional muito específico que você percebe até pelo comportamento dele: em geral não é uma estrela, é mais arredio. (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 2013 – grifo nosso).
Partimos, em movimento oposto ao raciocínio de Elvira Lobato, de um pressuposto distinto: o jornalismo investigativo, como um gênero que produz um conhecimento mais vertical sobre a realidade do que a reportagem factual ou a chamada grande reportagem, é passível de ser estimulado, apreendido e ensinado no ambiente de formação universitária.
Compartilho, neste brevíssimo texto, algumas reflexões sobre experiências pedagógicas de ensino do jornalismo investigativo, entre 2012 e 2024, a partir de um trabalho realizado no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – via oferta de uma disciplina optativa (“Jornalismo Investigativo”, 4 créditos). Ao longo de quase uma década, passaram por essa disciplina algo em torno de 200 estudantes, na média de 20 jovens jornalistas em formação por semestre.
Noções de jornalismo investigativo
Partimos de uma noção genérica advogada por Nascimento (2010): o jornalismo investigativo existe e se diferencia do jornalismo diário (factual). Para o pesquisador, é preciso reconhecer que a maioria das reportagens publicadas pela imprensa não é investigativa (no limite, contemplam um grau muito preliminar de investigação), mas ainda assim são jornalísticas e encerram determinado grau de relevância pública e social.
O autor nos oferece um exemplo hipotético: um ministro da Agricultura concede, às 18h, uma coletiva e
diz qual a previsão para a próxima safra de grãos. Um repórter de um grande jornal deixa a coletiva às pressas, às 18h30, e corre para seu computador; seu deadline para a edição nacional é 19h. A matéria é investigativa? É jornalismo? Não se trata de uma reportagem investigativa, mas de uma notícia que é o gênero jornalístico predominante nos veículos da indústria da informação, largamente consumido pelo público porque dialoga com a ancestral necessidade social da informação (NASCIMENTO, 2010).
No entanto, é nos pesquisadores Kovach e Rosenstiel (2003) que o pesquisador Solano Nascimento vai buscar uma definição original. Há três tipos de reportagem investigativa: a) reportagem investigativa original; b) reportagem investigativa interpretativa; e c) reportagem sobre investigações.
No primeiro caso, da reportagem investigativa original, trata-se do modelo clássico de jornalismo investigativo que tem no caso Watergate um exemplo canônico. A reportagem investigativa interpretativa diferencia-se da “original” porque não trabalha com fatos totalmente desconhecidos, mas com novas ligações e elo s até então ocultos. Podemos citar como exemplo os casos do The Papers e Panamá Papers.
Por último, temos o que Kovach e Rosenstiel (2003) qualificam como reportagem sobre investigações. Para os autores, seriam …reportagens que se dedicam ao acompanhamento de investigações em andamento. De acordo com esse conceito, a reportagem se origina (ou se fundamenta) da descoberta ou do vazamento de informações de uma investigação oficial em andamento ou outras fontes, geralmente agências governamentais. (KOVACH e ROSENSTIEL, 2003, apud NASCIMENTO, 2010, p. 20). Em última análise, o conceito-chave que Nascimento (2010, p. 22) propõe é simples e preciso: “Jornalismo investigativo só existe quando há investigação e quando quem investiga é o próprio jornalista”.
Reflexões pedagógicas: detalhando o plano de ensino
Do ponto de vista pedagógico, a ênfase da disciplina reflete os diferentes tipos de técnicas e práticas investigativas, que possam indicar alguns caminhos epistemológicos sobre o nosso objetivo de ensino.
Partimos dos seguintes objetivos:
a) Geral: refletir e apreender os conceitos básicos que envolvem o jornalismo investigativo, notadamente as
metodologias de reportagem investigativa; b) Específicos: elaborar uma pauta de reportagem investigativa, que será executada e orientada durante o semestre; produzir e, se possível, publicar uma reportagem investigativa até o fim do semestre (meio on-line); apresentar um seminário sobre uma obra publicada de
jornalismo investigativo, com foco na metodologia da reportagem.
O plano de ensino da disciplina, cujo caráter é teórico-prática, explora um conteúdo programático que, em
síntese, prevê quatro unidades: a) investigar e contextualizar o conceito de jornalismo investigativo (conceitos e história); b) apuração e imersão (metodologia da reportagem investigativa); c) reflexão crítica sobre o tema (produção cinematográfica e literatura); d) produção de um relatório sobre a prática da reportagem investigativa (detalhando os passos da apuração em campo).
Dando mais densidade ainda ao conteúdo proposto, há uma notável contribuição de parceiros, que atuam como jornalistas investigativos/as: os jovens repórteres Clarissa Levy (Agência Pública), Gabriele Oliveira (Portal Desterro) e Matheus de Moura (autor de O coronel que raptava infâncias); e figuras consagradas no meio profissional como Angelina Nunes (Projeto Tim Lopes/Abraji), Francisco Leali Gonçalves (O Estado de S.Paulo) e Mauri König (Uninter/PR) e Marcelo Soares (Lagom Data).
No tocante à produção (cinematográfica e literária), trabalhamos com pelo menos dois filmes – Spotlight: segredos revelados e Todos os homens do presidente – e obras produzidas por repórteres investigativos como Antonio Salas, Caco Barcellos, Daniela Arbex, Fernando Morais, Juliana Dal Piva, Frederico Vasconcelos, Klester Cavalcanti, Petra Reski, Roberto Saviano, Rubens Valente e Zuenir Ventura, entre outros, que são apresentadas na forma de rodas de conversa (seminários) nas últimas aulas.
Algumas considerações finais O ponto de partida destas breves reflexões pedagógicas contempla um debate preliminar muito importante que procura dar conta das definições de jornalismo investigativo disponíveis na literatura específica. Afinal, é possível ou não ensinar jornalismo investigativo nas universidades? Ou isso ficaria restrito àqueles/as profissionais detentores de um “dom” especial?
Nessa perspectiva, pretende-se alcançar como resultado uma síntese geral das noções sobre a metodologia da reportagem investigativa, ou seja, aferir de que modo conhecidos e reconhecidos repórteres investigativos pensam e/ou refletem sobre suas próprias opções técnicas e empíricas para empreender uma investigação jornalística. E pensar criticamente sobre as práticas consagradas de investigação jornalística, do ponto de
vista metodológico, pressupõe um olhar epistemológico.
Uma mirada pedagógica que parta dos conceitos e teorias sobre o jornalismo como forma social de conhecimento e do jornalismo investigativo como um gênero nobre de reportagem porque resulta num
conhecimento diferenciado, em geral fecundo e vertical, pode ser combinado com o estudo da metodologia da reportagem investigativa – visto pelas experiências (palestras presenciais e/ou por meios virtuais), livros reportagens, oficinas de LAI e minicursos de Jornalismo Guiado por Dados.
Em última análise, essa experiência nos auxilia a responder à questão levantada pela eminente jornalista Elvira Lobato: sim, o jornalismo investigativo pode (e deve) ser objeto de processos de ensino-aprendizagem nos cursos superiores de jornalismo. ■
Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024