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Jornalismo de esportes investigativo precisa de um novo modelo de financiamento

A falta de uma cultura investigativa forte no jornalismo esportivo pode ter um impacto devastador para crianças e jovens

25 outubro 2026

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A indústria do esporte, que responde por 2% do Produto Interno Bruto (PIB) global, é composta por diversas entidades dotadas de autonomia, mas financiadas em parte com dinheiro público. E cada uma delas
tem controle quase absoluto sobre seu setor. Essas organizações não só operam sem concorrência, mas estão, em grande parte, livres de qualquer supervisão pelo poder público. Esse vazio deixa espaço para abusos de toda natureza — raciais, sexuais, financeiros, de direitos humanos. As poucas organizações dedicadas a promover reformas no setor em geral são bancadas pela própria indústria esportiva A situação só tende a piorar, pois é cada vez maior a influência de governos não democráticos e repressivos no setor — como Arábia Saudita e China. E, no último ano, muitos dos veículos de comunicação que tradicionalmente faziam um jornalismo crítico e investigativo da indústria esportiva reduziram drasticamente a cobertura ou
encerraram suas atividades.

Essa falta de cobrança no esporte significa que jornalistas investigativos devem desempenhar um papel crítico na informação do público. Foram eles que, nas duas últimas décadas, expuseram o elo entre concussões e danos cerebrais, o perigo de medicamentos para melhorar o desempenho atlético e o abuso físico e mental praticado contra atletas universitários nos Estados Unidos.

É um trabalho crítico salva-vidas, poupa dinheiro e protege indivíduos vulneráveis. Mas essa arena investigativa está encolhendo (e aqui incluo o fim do programa Real Sports with Bryant Gumbel, da HBO, onde trabalhei por 17 anos). Muito da cobertura esportiva que restou — boa parte dela bancada pela própria indústria — está mais para o incentivo do que para jornalismo e é publicada ou transmitida por entidades mais preocupadas com acesso do que com transparência.

Nos Estados Unidos, por exemplo, clubes de propriedade de indivíduos abastados recebem bilhões de dólares em recursos públicos, esvaziando o cofre de alguns dos municípios mais pobres do país. No entanto, devido à cobertura normalmente elogiosa que os times recebem — tanto na imprensa local quanto em transmissões de TV —, esses proprietários costumam ser vistos como benfeitores da localidade, não como beneficiários de dinheiro público.

Além disso, a indústria esportiva americana gasta milhões em lobby e doações a campanhas políticas. No entanto, é raro a imprensa tratar desse assunto — em parte, ao que parece, porque a existência de um clube é boa para a mídia local, pois engrossa a audiência e o número de leitores. E há, ainda, o grande temor de perder acesso a franquias, a donos de clubes, a jogos e aos próprios atletas locais.

A falta de uma cultura investigativa forte no jornalismo esportivo pode ter um impacto devastador para crianças e jovens, milhões dos quais participam de esportes formalmente organizados. Dados da própria National Collegiate Athletic Association (NCAA), que congrega entidades de esportes universitários nos Estados Unidos, por exemplo, mostram que seus atletas são os trabalhadores mais explorados do país — um fato que recebe pouquíssima cobertura.

No ensino médio, por exemplo, jovens de famílias de alta renda são cada vez mais impedidos pelos pais de jogar futebol americano devido ao sabido risco para o cérebro. Apesar disso, a imprensa pouco fala sobre o preocupante fato de que jovens de famílias mais pobres estão sendo recrutados por treinadores para preencher a lacuna.

São fatos com tremendas implicações éticas, para a saúde e a segurança — mas com frequência ignorados ou tratados com um generalizado desdém. Qual seria, então, a solução? No caso específico dos Estados Unidos, muitas das entidades com papel de destaque no esporte — times de escolas e universidades públicas, órgãos de governo que subvencionam estádios — são instituições públicas e estão sujeitas a leis de acesso à informação. Além disso, boa parte do tratamento especial questionável — incentivos fiscais, política regulatória, benefícios corporativos — ocorre por meio de lobby, doações a campanhas políticas e tráfico de influência, tanto na esfera federal quanto em governos estaduais. E toda essa informação também é aberta ao público.

E, como em geral as pessoas entram no esporte movidas por ideais, não falta gente desiludida, que atua ou atuou em entidades desportivas, disposta a revelar informações sobre condutas irregulares. Já há gente trabalhando para converter essa informação em jornalismo, embora não ainda em número suficiente. O que falta é um suporte estável e duradouro para a cobertura investigativa da indústria do esporte.

O jornalismo investigativo sem fins lucrativos aumentou a cobrança sobre outros setores, poupando recursos públicos preciosos e prevenindo a exploração de comunidades vulneráveis. É preciso uma iniciativa similar no esporte.

Grandes doadores normalmente justificam o apoio ao jornalismo independente como um meio de incutir confiança em instituições civis, reduzir a polarização política e fortalecer a democracia. Por essa mesma ótica,
apoiar o jornalismo investigativo no esporte é uma aposta acertada.

O público americano tem um constante e intenso interesse no esporte. A comunidade filantrópica tem a oportunidade de ajudar jornalistas esportivos a encontrar um modelo sustentável para o jornalismo investigativo na área. A hora de agir é agora. ■

Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024

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