Sinval Itacarammbi. Arquivo Pessoal.

Arquivo Pessoal

No meio do caminho tinha um pedregulho

Em homenagem ao jornalista Sinval de Itacarambi Leão (1943-2024)

25 outubro 2026

Sinval Itacarammbi. Arquivo Pessoal.
Sinval Itacarammbi. Arquivo Pessoal.

Brotou uma flor amarela na orquídea dada havia um ano pelo querido amigo Sinval de Itacarambi Leão. Coincidiu com sua morte, em 5 de agosto de 2024, aos 81 anos. Da semente da Revista IMPRENSA, que ele plantou em 1987, floresceram a Revista da ESPM (1994), o Observatório da Imprensa (1998) e a revista digital Rumores (2007), da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Foi um pioneiro. Como lembra o jornalista Rosental Alves, veterano professor de jornalismo da Universidade do Texas, em Austin, “antes do Sinval, havia pouca ou nenhuma cobertura da indústria jornalística. A norma era que jornalista não é notícia, mas produz notícia. A Revista IMPRENSA quebrou esse tabu”.

Sinval viveu na pele o desafio do jornalismo brasileiro para ser livre. Ele foi preso e torturado em 1969 e 1971 pela ditadura militar. Daí criou e cultivou o Prêmio Libero Badaró de Jornalismo, em 1989, para homenagear o primeiro jornalista assassinado no Brasil ao tempo do Império, por defender a liberdade de imprensa. Em 2005, Sinval criou o Troféu Mulher Imprensa, o primeiro reconhecimento para as jornalistas que lotam as redações de jornais, tevês, rádios e mídia digital.

Com esses e outros prêmios, e nasreportagens da Revista IMPRENSA, Sinval lutou contra o descrédito provocado pela disseminação de notícias falsas, pela liberdade de imprensa e contra segredo de justiça para impedir o acesso à informação. Sua própria trajetória de vida e de jornalista é uma inspiração para novos jornalistas: ele acreditava que o jornalismo tem o poder de transformar a sociedade e inspirar mudanças, lutou contra a censura, pela qualidade da informação e pela ética na profissão, cujo papel sempre foi fiscalizar o poder público e informar.

Foi um monge. Monge de verdade. Depois de 14 anos, com autorização do Vaticano, Sinval deixou o Mosteiro São Bento. Ainda lá chegou a fazer um jornalzinho, a que chamou de El Paredón, inspirado no paredão cubano onde inimigos da Revolução de 1959 eram fuzilados. Não foi uma boa escolha, nem para os beneditinos, em tempos de ditadura militar.

Tinha 25 anos ao viver “entre homens comuns”. Aos 28, casou-se com Ruth, que conheceu quando estudava filosofia. Tiveram quatro filhos e viveram juntos até ele morrer. Só o conheci nos anos 1990. E posso dizer que o único excesso dele, fora o trabalho na Revista IMPRENSA, era um bom vinho à mesa. Fizemos entrevistas juntos. Discutimos seus novos projetos. Ele fervilhava de ideias. Algumas vezes me ligou de hospitais. Queria entender o que estava acontecendo no Oriente Médio. A sua saúde começou a deteriorar em 2012, por causa de uma insuficiência cardíaca.

Na vida nada fácil, Sinval encontrou mais que uma pedra no meio do caminho. Um pedregulho. Peço vênia ao nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Estava no nome dele, Itacarambi, do Tupi-Guarani, que significa “pedregulho, seixos”. ■

Artigo publicado originalmente na edição 34 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Julho – Dezembro 2024

Moisés Rabinovici Jornalista e fundador do Museu da Corrupção. Fez parte da equipe que criou o Jornal da Tarde. Foi correspondente no Oriente Médio – com base em Israel, cobrindo também Egito, Líbano e Jordânia – e em Washington (EUA). Também foi corresponde em Paris, pela revista Época.

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