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O Novo Agora, de Marcelo Rubens Paiva,autor de Feliz Ano Velho e Ainda Estou Aqui

O Novo Agora, livro de Marcelo Rubens Paiva, que dá continuidade às memórias narradas em Feliz Ano Velho (1982), seu livro de estreia

23 outubro 2026

O NOVO AGORA
Marcelo Rubens Paiva
Alfaguara
272 páginas

EM 2014, QUANDO O GOLPE MILITAR de
1964 completava 50 anos, a Câmara dos
Deputados decidiu inaugurar um busto do
deputado Rubens Paiva, homenageando
sua luta pela democracia e sua morte
prematura sob tortura durante a ditadura.
Toda a família de Paiva compareceu ao
evento e, durante o discurso de uma das
filhas, ocorreu uma cena inesperada
e deplorável. O então deputado Jair
Bolsonaro, acompanhado de um grupo
de seguranças, interrompeu a cerimônia
com gritos ofensivos, afirmando que
“Rubens Paiva teve o que mereceu,
comunista desgraçado!”. Ao passar pelo
busto, ele cuspiu na imagem do deputado,
um ato que simbolizou uma afronta não
apenas à memória de Paiva, mas também
à luta pela democracia.

Ao longo de sua vida, Bolsonaro sempre revelou uma obsessão peculiar por Paiva. Ambos foram criados em localidades próximas no município de Eldorado Paulista, no Vale do Ribeira. Enquanto Bolsonaro era filho de uma família pobre de imigrantes italianos, a família de Paiva era proprietária de uma grande fazenda.

Na mesma região, o capitão Carlos Lamarca iniciou sua rebelião armada contra a ditadura. Com seu conservadorismo extremo, Bolsonaro confundiu tudo. Ele afirma que Lamarca iniciou seu foco guerrilheiro na
fazenda de Paiva e alega que lutou contra a guerrilha (ele era apenas uma criançae provavelmente ouviu sobre o assunto apenas em casa).

A cusparada de Bolsonaro antecipou o que poderia ser sua trajetória nos anos seguintes, incluindo seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff, que foi uma homenagem ao homem que a torturou durante seu período de prisão política na ditadura, e seu dia a dia como presidente, sempre flertando com a ideia de uma volta à ditadura.

O episódio é uma das histórias contadas no recém-lançado O Novo Agora, de Marcelo Rubens Paiva, que dá
continuidade às memórias narradas em Feliz Ano Velho (1982), seu livro de estreia e um dos maiores best-sellers da história do Brasil, e em Ainda Estou Aqui (2015), que foi adaptado para o cinema sob a direção de Walter Salles Jr. e recebeu o Oscar. Menos lembrado, Marcelo também escreveu Não És Tu, Brasil (1996), em um momento de reflexão sobre a situação do país e o trauma familiar que levou os cinco filhos de Rubens Paiva a morar no exterior (desde então, Marcelo e duas irmãs voltaram a residir no Brasil).

Em O Novo Agora, assim como em suas obras anteriores, Marcelo Rubens Paiva intercala memórias e acontecimentos familiares para discutir a paternidade.

Escritor, pai após os 50 anos, cadeirante e considerado um inimigo pelo governo Bolsonaro, Marcelo descreve o período de dez anos entre o nascimento de seu filho mais velho, no mesmo ano da cusparada de Bolsonaro, e a estreia de Ainda Estou Aqui no Festival de Veneza, dez anos depois.

Nas obras anteriores, ele aborda o acidente que o deixou em uma cadeira de rodas aos 20 anos, o desaparecimento do pai, Rubens, durante a ditadura militar, e a luta da mãe, Eunice, para cuidar
sozinha dos cinco filhos, tornando-se defensora dos direitos indígenas e, por fim, enfrentando o Alzheimer.

Desta vez, em O Novo Agora, é o próprio Marcelo quem está no papel de pai. Além de suas memórias, Marcelo é um escritor prolífico, com cerca de cinquenta obras, incluindo livros de ficção e não ficção, peças de teatro e roteiros de cinema.

Artigo publicado originalmente na edição 35 da Revista de Jornalismo ESPM CRJ. Janeiro – Junho 2025.

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