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Em uma crise que se desenvolve rapidamente, qual é o papel do jornalismo?  

Organizações de notícias comunitárias, inseridas em um ecossistema informacional nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, podem verificar, esclarecer e conectar.

22 outubro 2026

As inundações de 2024 no Rio Grande do Sul, estado do sul do Brasil, foram o maior desastre climático já registrado na região. Da noite para o dia, a água cobriu bairros inteiros e desalojou mais de quatrocentas mil pessoas. A informação também se espalhou rapidamente. As pessoas compartilharam endereços de abrigos, pedidos de resgate e atualizações sobre a subida do nível da água por meio de grupos de WhatsApp e redes de voluntários. 

Mas a abundância não significava precisão. Mensagens vitais circulavam juntamente com alertas não verificados, enquanto voluntários se apressavam para atualizar planilhas e verificar informações. Em um caso, notificações de que o nível da água estava baixando levaram uma família a ficar em casa. Mas as pessoas dessa família tomaram decisões com base em informações incompletas, desatualizadas ou incorretas. Dois membros da família morreram. 

No Rio Grande do Sul, jornalistas se viram não apenas fazendo reportagens, mas também verificando, esclarecendo e conectando informações compartilhadas por outras pessoas. Repórteres em Porto Alegre, capital do estado, criaram um grupo no WhatsApp que cresceu para mais de seiscentas pessoas, incluindo pesquisadores e assessores de comunicação pública. Antes de divulgar um mapa de risco da Defesa Civil, autoridades públicas o compartilharam no grupo — e jornalistas e pesquisadores apontaram informações importantes que faltavam para orientar os moradores a se deslocarem para locais seguros.

Meses após a enchente em Sarandi, um bairro pobre e historicamente negligenciado, os moradores enfrentaram um problema diferente: bueiros entupidos, que os expunham a novas inundações. Em parceria com a mídia local, a associação de moradores elaborou um mapa georreferenciado dos bueiros entupidos e o utilizou para pressionar a prefeitura a tomar providências. 

Esses exemplos — apresentados em uma pesquisa que temos desenvolvido para a Fundação Getúlio Vargas, no Brasil, revelam um sistema que muitas vezes permanece invisível, no qual jornalistas compartilham a responsabilidade pela verificação e distribuição de informações como um recurso coletivo da comunidade. Em uma crise, quando nenhuma instituição sozinha possui todas as respostas, jornalistas, pesquisadores e autoridades podem trabalhar juntos para comparar informações, corrigir erros e tornar as atualizações o mais úteis possível antes que cheguem ao público.

Iniciativas semelhantes de compartilhamento coletivo de informações surgiram em outros lugares em resposta a desastres. Conforme relatou o jornalista venezuelano, Tony Frangie Mawad, para a CJR, após o devastador terremoto que atingiu a região em junho, os jornalistas passaram a fazer parte de uma rede improvisada, na qual “transformamos nossas contas em plataformas para conectar pessoas necessitadas àquelas que poderiam ajudá-las. ONGs e até embaixadas começaram a nos procurar e a se comunicar por nosso intermédio”. A Redsonadoras, um site de notícias liderado por mulheres, criou um banco de dados colaborativo para permitir que as pessoas encontrassem seus entes queridos, alimentado por relatos e solicitações de leitores. 

Nos Estados Unidos, nos últimos meses, com a intensificação das atividades de fiscalização da imigração, as informações têm circulado por canais informais: grupos de WhatsApp, publicações no Facebook, chats no Signal, páginas em redes sociais, redes de resposta rápida e contas de bairros. As pessoas anotam a localização dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), verificam se uma ocorrência foi confirmada, informam o que fazer caso um parente seja detido e quais detalhes podem ser compartilhados sem colocar alguém em risco.

Durante seis anos, o Cicero Independiente , um jornal cívico em uma cidade de maioria latina nos arredores de Chicago, funcionou como uma redação típica, com calendário editorial, funções claras e fluxo de trabalho definido. Mas quando começaram a circular relatos de atividades do ICE, essa estrutura tradicional se tornou uma limitação. A informação se espalhava mais rápido do que os jornalistas conseguiam apurar, reportar ou publicar. A redação se reinventou. Com base em relacionamentos construídos ao longo de anos, o Cicero Independiente passou a trabalhar com redes de resposta rápida, organizadores, moradores e contas locais nas redes sociais. A redação compartilhou práticas de verificação com os moradores e começou a administrar um grupo local no Facebook sobre ocorrências do ICE para combater a desinformação diretamente. A mudança de abordagem não se concentrou em tornar-se a fonte de todas as respostas, mas sim em ajudar os moradores a formularem perguntas melhores antes de compartilharem o que viram. 

Em Nova York, a equipe do Documented observou rumores se espalharem rapidamente pelo TikTok, YouTube e redes familiares, mas as atividades do ICE era frequentemente difíceis de verificar. Alertar as pessoas para evitarem uma rua sem provas suficientes poderia causar danos, incluindo faltas ao trabalho, perda de renda ou medo de comparecer a uma audiência judicial. A redação estabeleceu desde cedo uma distinção entre ser responsiva e ser reativa. “O objetivo era dar às pessoas contexto suficiente para que pudessem tomar decisões”, disse Rommel Ojeda, correspondente comunitário do Documented. 

No Vale Central da Califórnia, uma redação comunitária chamada uSpark, voltada para o público millennial e da Geração Z, aproveitou conexões já existentes com redes que respondiam às atividades da Patrulha da Fronteira, com moradores enviando alertas pelas redes sociais e ativistas coordenando ações por meio de grupos no Signal e reuniões locais. “Nós já estávamos no local e fazendo reportagens sobre o que estava acontecendo”, disse Luna Cortes, fundadora da uSpark e também uma de suas repórteres. Inicialmente, os moradores enviavam alertas diretamente para a uSpark porque o sistema local de resposta rápida, o Valley Watch, não era muito conhecido. Quando sua caixa de entrada ficou sobrecarregada com denúncias, a uSpark começou a redirecionar os alertas para o Valley Watch, o que ajudou o ecossistema de informações a funcionar. Com o tempo, a uSpark recebeu uma verba do Central Valley Democracy Fund, financiado pela Fundação James B. McClatchy, e contratou um repórter especializado em imigração; além disso, distribuiu pelo menos dez mil cartões informativos sobre direitos durante o primeiro mês após o início das operações do ICE. 

A abordagem colaborativa de compartilhamento de informações tem se mostrado eficaz, mas permanece pouco reconhecida e pouco financiada. Um levantamento de 2024 sobre a mídia cívica, realizado pela rede News Futures, uma comunidade que trabalha pela equidade informacional, analisou dezoito organizações de notícias cujo trabalho fortalecia os laços comunitários ou promovia o engajamento cívico. Mesmo entre esses veículos comprometidos com a comunidade, poucos contavam com funções de engajamento comunitário ou parcerias cívicas em suas equipes executivas. A lacuna de financiamento é semelhante. Quase metade das organizações não tinha orçamento para treinar jornalistas para trabalhar com as comunidades, embora muitas desenvolvessem programas para membros da comunidade. Apenas 38% remuneravam pessoas que contribuíam para a reportagem ou produção de informações. Sem apoio, a rede depende de pessoas que podem não conseguir se manter envolvidas após a superação da crise imediata. 

Um relatório da Media Impact Funders defende que o jornalismo precisa construir uma infraestrutura que seja “compartilhada, de longo prazo, coordenada e orientada para o sistema”, em vez de episódica ou limitada a projetos específicos. Isso inclui adicionar funções de coordenação, oferecer treinamento à comunidade, construir redes de confiança e manter relacionamentos com organizações comunitárias nos intervalos entre crises. 

Essa mudança de estratégia, como vimos no Brasil, na Venezuela, nos EUA e em outros lugares, não torna o jornalismo menos importante em uma crise. Ao contrário, ajuda as comunidades a confiar, compartilhar e agir com base nas informações quando isso é mais importante — recorrendo à experiência jornalística.

Irene Romulo é cofundadora do Cicero Independiente , onde lidera o trabalho de desenvolvimento e engajamento do público da equipe. Foi bolsista do programa Knight-Wallace de Jornalismo e reconhecida como uma das lideranças do programa “Leader for a New Chicago” em 2022.

Nina Weingrill é uma jornalista brasileira, profissional de mídia cívica, bolsista Knight-Wallace de 2025–26, doutoranda e pesquisadora de ecossistemas de informação em situações de crise.

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